4 de novembro de 2026

Economia franco-brasileira

Terras raras, nióbio e lítio: o subsolo brasileiro vira questão de soberania para a Europa

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás da China. A Vale faturou US$ 38,4 bilhões em 2025 e a francesa Eramet, recapitalizada com apoio do Estado, produz lítio na fronteira argentina.

Foto : Pixabay / francescobovolin

Em setembro de 2026, o Brasil promulgou a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A informação aparece na carta de desenvolvimento sustentável que o Tesouro francês dedica ao país, e não é detalhe. Pela estimativa do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) de fevereiro de 2025, o Brasil tem 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, a segunda maior do mundo, atrás da China, com 44 milhões, e muito à frente de Índia, Austrália e Rússia. Esses metais vão nos ímãs de turbinas eólicas, motores elétricos e equipamentos militares. A China concentra cerca de dois terços das reservas e perto de 87% do comércio mundial. O Brasil, até há pouco, não produzia nada em escala comercial.

Vale, nióbio e minério de ferro

O país já é potência mineral no sentido clássico: segundo produtor mundial de minério de ferro, primeiro em nióbio, com cerca de 98% das reservas conhecidas, quarto em bauxita e manganês, quinto em lítio e oitavo em níquel. A Vale, privatizada em 1997, faturou US$ 38,4 bilhões em 2025 e lucrou US$ 2,4 bilhões. Comandada por Gustavo Pimenta, tem ações negociadas em São Paulo e Nova York e também em Paris e Madri. Seus metais básicos, níquel, cobre e cobalto, foram reunidos em 2023 na Vale Base Metals, com sede em Toronto e conselho presidido por Mark Cutifani, que tem a Tesla entre os clientes. A França compra do Brasil 0,9 bilhão de euros por ano em produtos extrativos, segundo item da pauta de importações em 2024, atrás apenas de alimentos.

Eramet, lítio na porta do Brasil

A Eramet é a mineradora francesa mais próxima do continente. Sua planta de Centenario-Ratones, na província argentina de Salta, tem capacidade nominal de 24 mil toneladas de carbonato de lítio por ano e atingiu 90% dessa capacidade em junho de 2026. A empresa estuda uma primeira ampliação de 11 mil toneladas, por cerca de US$ 350 milhões, e pretende aderir ao RIGI, o regime argentino de incentivo a grandes investimentos, que garante trinta anos de estabilidade regulatória. Jean-Baptiste Hogard, diretor da unidade de lítio, descreve o site como a primeira instalação integrada de nova geração a usar extração direta de lítio em escala industrial fora da China. O grupo vem de um ano ruim: em 2025, o EBITDA ajustado caiu 54%, para 372 milhões de euros, e o resultado líquido atribuível, excluída a SLN, foi negativo em 370 milhões, por causa dos preços do manganês. Christel Bories, presidente-executiva, colocou como prioridade de 2026 o desempenho operacional e o controle de custos. Em 12 de outubro de 2026, a Eramet confirmou um aumento de capital de 500 milhões de euros, com apoio dos acionistas de referência e um investimento estratégico do Estado francês. Seus ativos ficam no Gabão, no Senegal, na Indonésia, na Nova Caledônia e na Argentina. O Brasil, por enquanto, é vizinho.

A leitura da soberania

Para a Europa, depender de Pequim em terras raras é entregar a um concorrente as chaves da transição energética e da defesa. O Brasil oferece uma alternativa geológica, mas o capital chinês já está muito presente em suas minas e em sua infraestrutura. A França percebeu isso: os minerais críticos estão entre os setores prioritários do Fórum França-Brasil marcado para 27 de setembro de 2027, em Paris. Para geólogos, engenheiros de minas e advogados brasileiros formados na França, é um campo em que conhecer o terreno brasileiro e as regras europeias vale muito.