4 de novembro de 2026

Economia franco-brasileira Investigação

JBS em Wall Street: US$ 23,9 bilhões de vendas, prejuízo e riscos fora do balanço

Listada em Nova York desde junho de 2025, a holding JBS N.V. entregou em 10 de agosto de 2026 seu relatório trimestral: receita recorde, lucro líquido negativo, US$ 22,6 bilhões de dívida. O que os números dizem, e o que não dizem.

Foto : Pixabay / kalhh

US$ 23.899.580.000. É a receita líquida da JBS N.V. no segundo trimestre de 2026, segundo o formulário 10-Q entregue à Securities and Exchange Commission em 10 de agosto de 2026. Um ano antes, o grupo registrava US$ 21 bilhões. Mas o resultado líquido atribuível aos acionistas passou de lucro de US$ 528 milhões para prejuízo de US$ 102 milhões. O EBITDA ajustado recuou de US$ 1,75 bilhão para US$ 1,43 bilhão. Mesmo assim, o grupo pagou US$ 1,04 bilhão em dividendos no primeiro semestre, um dólar por ação, em 17 de junho.

Seis segmentos, um elo fraco

O 10-Q detalha seis segmentos. Beef North America tem as maiores vendas, US$ 7,77 bilhões, mas EBITDA ajustado negativo de US$ 78 milhões, depois de perda de US$ 233 milhões um ano antes: o ciclo pecuário americano pesa. A Pilgrim’s Pride, frango nos Estados Unidos e na Europa, segue como maior contribuinte, com US$ 503 milhões de EBITDA, queda de 38%. A Seara, frango e alimentos processados no Brasil, gera US$ 380 milhões; o segmento Brazil, carne bovina, US$ 269 milhões; Australia, US$ 231 milhões; Pork USA, US$ 117 milhões, contra US$ 254 milhões um ano antes. O crescimento das vendas vem do Brasil (+28%) e da Austrália (+30%).

Dívida, caixa, provisões

Empréstimos e financiamentos somam US$ 22,65 bilhões em 30 de junho de 2026, contra US$ 21,09 bilhões no fim de 2025, dos quais US$ 19,1 bilhões em bonds. O caixa encolheu de US$ 4,57 bilhões para US$ 3,47 bilhões em seis meses. O patrimônio líquido é de US$ 9,06 bilhões para US$ 45,8 bilhões de ativos. O grupo declara cumprir todos os covenants bancários. As provisões para processos judiciais chegam a US$ 444 milhões: US$ 223 milhões no Brasil (trabalhistas, cíveis, tributários) e US$ 220 milhões nos Estados Unidos. Os acordos antitruste fechados pela JBS USA e suas subsidiárias custaram US$ 133 milhões só no trimestre, US$ 157 milhões no semestre. O relatório também contabiliza US$ 24 milhões pelo fechamento definitivo das fábricas de Memphis, Souderton e Chattanooga.

O que o 10-Q não mede

O relatório foi fechado em 30 de junho e entregue em 10 de agosto. Não podia incorporar a suspensão europeia de 3 de setembro de 2026, que fecha um mercado equivalente a cerca de 7% das exportações do grupo em 2024, nem o veto chinês a uma unidade da JBS por progesterona no fim de maio, noticiado pela Reuters. Os fatores de risco do documento mencionam, em termos gerais, o risco reputacional ligado a processos cíveis e criminais contra os acionistas controladores nos Estados Unidos e no Brasil. Esses controladores finais são nomeados: Joesley e Wesley Mendonça Batista. A estrutura com duas classes de ações (776 milhões de ações A, 295 milhões de ações B com voto múltiplo) lhes garante, segundo o relatório do CR451, centro de pesquisa da École de Guerre Économique, cerca de 85% dos direitos de voto. Em abril de 2025, a investigação do The Guardian, da Repórter Brasil e da Unearthed, repercutida pelo Greenpeace, estimava em US$ 6,4 bilhões o conjunto de passivos ligados a processos criminais, cíveis e outros. O 10-Q provisiona US$ 444 milhões. Entre um número e outro está a parcela de riscos que a JBS classifica como perdas possíveis e não quantifica neste relatório.