3 de novembro de 2026

Economia franco-brasileira

Vinho, queijo e café: o que o acordo UE-Mercosul muda na mesa dos dois países

Em aplicação provisória desde 1º de maio de 2026, o acordo elimina gradualmente 93% das tarifas do Mercosul sobre produtos europeus. Vinhos franceses e 357 indicações geográficas ganham espaço no Brasil.

Foto : Pixabay / elle_kh

Uma garrafa de Bordeaux na prateleira de um supermercado de São Paulo paga hoje um imposto de importação que a torna artigo de luxo. Esse é o tipo de barreira que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul se propõe a derrubar. Assinado em Assunção em 17 de janeiro de 2026, com votos contrários de França, Polônia e Hungria, e questionado no Tribunal de Justiça da União Europeia, o acordo comercial interino está em aplicação provisória desde 1º de maio de 2026. Na França, ele é discutido quase só pela cota de 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida. No Brasil, o outro lado da moeda interessa mais: o Mercosul se compromete a eliminar 93% das tarifas sobre bens europeus e a dar tratamento preferencial aos 7% restantes, com prazos de transição de até quinze anos. A Comissão Europeia calcula uma economia de 4,5 bilhões de euros por ano em tarifas para os exportadores do bloco.

Espaço para o vinho francês

Vinhos, destilados, queijos e chocolates europeus estão entre os produtos cujas tarifas brasileiras devem cair até zero. O acordo também protege 357 indicações geográficas europeias contra imitações, do champanhe ao roquefort, passando pelo presunto de Parma. Para os produtores franceses, há muito a ganhar porque o ponto de partida é baixo. Em 2024, segundo o serviço econômico da embaixada da França em Brasília, os produtos agroindustriais representaram apenas 3,9% dos 4,1 bilhões de euros exportados pela França ao Brasil, e os produtos agrícolas brutos, 0,6%. O grosso das vendas francesas continua sendo aviação, química, cosméticos, máquinas e remédios. Chilenos e argentinos já vendem vinho ao Brasil sem tarifa, por fazerem parte do bloco regional. Um mercado de 213 milhões de habitantes, com uma classe média que descobre o vinho e o queijo maturado, é a oportunidade que as vinícolas de Bordeaux, da Borgonha e do Languedoc esperavam.

Café e soja no sentido contrário

No caminho inverso, o Brasil abastece a mesa francesa. Alimentos processados são o principal item importado pela França do Brasil, com 1,1 bilhão de euros em 2024, seguidos de minérios (0,9 bilhão), produtos agrícolas, florestais e da pesca (0,5 bilhão, alta de 14,3%) e madeira, papel e celulose (0,5 bilhão). Café, do qual o Brasil é o maior produtor mundial, sucos, soja para ração e celulose compõem a maior parte desse fluxo. A cachaça ainda é produto de nicho na França, presente em bares de coquetelaria e mercearias brasileiras. O acordo já aparece nas estatísticas: segundo nota do Tesouro francês de 22 de outubro de 2026, as exportações brasileiras cresceram 10,4% nos nove primeiros meses de 2026, para US$ 284,6 bilhões, e as vendas para a União Europeia subiram 20%.

Um agro de duas velocidades

O boletim agrícola do Tesouro francês de agosto e setembro de 2026 mostra um setor em contradição. A Conab projeta safras recordes para 2025/26, a agricultura sustentou o crescimento do PIB no segundo trimestre (0,5%) e os fabricantes de máquinas seguem ampliando operações no país, mas a agroindústria recuou 2,9% em julho e os portos saturados encarecem a logística. O Senado aprovou um programa de apoio à produção de fertilizantes, e o Brasil se comprometeu a restaurar 16,3 milhões de hectares até 2030. A Câmara de Comércio França-Brasil, pela voz de seu presidente em São Paulo, Thierry Besse, abriu em maio de 2026 um diálogo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil sobre o acordo. Para o brasileiro que trabalha na França com importação, restaurantes ou vinho, é hora de conhecer os dois mercados: as adegas de Paris procuram contatos em São Paulo, e os importadores brasileiros querem parceiros na Borgonha e em Bordeaux.