3 de novembro de 2026

Economia franco-brasileira

Nubank, QuintoAndar e iFood: os unicórnios brasileiros que a French Tech observa de perto

O Nubank lucrou US$ 2,87 bilhões em 2025 e tem 131 milhões de clientes. O Brasil atrai capital recorde em tecnologia, e a French Tech mantém uma comunidade em São Paulo.

Foto : Pixabay / RonaldCandonga

Em 30 de abril de 2026, a OCDE publicou um ranking que surpreendeu muita gente: o Brasil foi o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto do mundo em 2025, com US$ 77 bilhões, alta de 22,2%, atrás apenas de Estados Unidos e China. Um único projeto explica boa parte do salto, um data center para inteligência artificial movido a energia eólica, avaliado em US$ 40 bilhões. A notícia confirma algo que o ecossistema de startups já sabia: o país voltou ao radar do capital global.

Do Nubank ao iFood

O caso mais visível é o Nubank. Fundado em São Paulo em 2013 pelo colombiano David Vélez, pela brasileira Cristina Junqueira e pelo americano Edward Wible, o banco digital soma cerca de 131 milhões de clientes no Brasil, no México e na Colômbia. Em 2025, faturou US$ 16,3 bilhões e lucrou US$ 2,87 bilhões, com 10.027 funcionários. A abertura de capital na Bolsa de Nova York, em dezembro de 2021, avaliou a empresa em US$ 45 bilhões. Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional para operar como banco nos Estados Unidos. Para milhões de brasileiros, foi o primeiro cartão de crédito ou a primeira conta. O QuintoAndar, plataforma de aluguel e venda de imóveis criada em 2013 por André Penha e Gabriel Braga, virou unicórnio em setembro de 2019, o nono do Brasil e o primeiro do setor imobiliário, depois de uma rodada de mais de R$ 1 bilhão liderada pelo SoftBank, com General Atlantic, Kaszek, Qualcomm Ventures e QED Investors entre os sócios. O iFood, de 2011, controlado pela Movile, do grupo holandês Prosus, domina a entrega de comida: em agosto de 2022, a Prosus comprou os 33% que pertenciam à Just Eat por 1,8 bilhão de euros. O que essas empresas têm em comum é terem crescido em um mercado de 213 milhões de pessoas, altamente bancarizado pelo celular, e terem levantado quase todo o dinheiro com fundos americanos e asiáticos. Fundos franceses ainda aparecem pouco nessas rodadas.

Inteligência artificial como aposta

A Direção-Geral do Tesouro da França observou em setembro de 2026 que o Brasil pode usar a inteligência artificial para destravar uma produtividade estagnada, com o poder público acelerando financiamento e infraestrutura, embora os ganhos dependam da adaptação dos trabalhadores. A França joga no mesmo campeonato: o relatório da OCDE registra um investimento de US$ 43 bilhões para o maior data center de IA da Europa, em território francês. Os dois países disputam os mesmos engenheiros e os mesmos investidores.

A French Tech em São Paulo

A Mission French Tech, órgão do governo francês para startups, coordena 78 comunidades fora da França, uma delas em São Paulo, onde empreendedores franceses e francófonos se reúnem com apoio da Business France, que atende cerca de 600 empresas por ano no Brasil. O programa French Tech Tremplin, voltado a fundadores de origem menos favorecida, selecionou 102 projetos em sua quinta turma. Para o brasileiro que vive na França, a conta fecha nos dois sentidos. Startups francesas que querem entrar no Brasil precisam de quem entenda o Pix, os hábitos de consumo e a regulação local. Unicórnios brasileiros que contratam engenheiros olham para as escolas francesas. Falar as duas línguas e conhecer os dois ecossistemas deixou de ser detalhe de currículo: é uma competência que os dois mercados pagam para ter.