Segunda-feira, 2 de novembro: a direção da Vallourec anunciou aos representantes dos trabalhadores a abertura de um plano de preservação do emprego (PSE, o nome francês para plano de demissões coletivas) em sua unidade de Aulnoye-Aymeries, no departamento do Nord. Cerca de cem postos estão na mira, segundo informações da rádio ICI Nord (ex-France Bleu). As medidas de acompanhamento ainda não foram detalhadas. A unidade, berço histórico do grupo ao lado de Montbard, na Côte-d’Or, já havia perdido uma centena de empregos no plano de 2022, que concentrou ali a pesquisa e desenvolvimento.
Um grupo recuperado que continua cortando
O paradoxo está aí. A Vallourec vai bem. No segundo trimestre de 2026, a fabricante de tubos sem costura para o setor de energia teve receita de 886 milhões de dólares e lucro operacional bruto (Ebitda) de 190 milhões, margem de 21,4 %. O lucro líquido chegou a 45 milhões de dólares. O caixa líquido era de 183 milhões de dólares em 30 de junho, o maior nível desde 2009, com liquidez total de 2 bilhões. O grupo pagou um dividendo extraordinário de 2,05 euros por ação em agosto e confirma uma devolução de cerca de 650 milhões de euros aos acionistas em 2026, dos quais 110 milhões em recompra de ações. O presidente-executivo Philippe Guillemot celebra « a solidez e a resiliência de seu modelo de negócios ».
Essa recuperação foi obtida ao preço de uma reestruturação brutal. Depois de beirar a falência, a Vallourec fechou suas fábricas na Alemanha, cortou cerca de 3 mil empregos e encerrou a fabricação europeia de tubos sem costura. O plano de 2022 custou 250 postos no norte da França, inclusive a tubularia de Saint-Saulve. A ArcelorMittal tornou-se acionista de referência em agosto de 2024, com 27,5 % do capital por 955 milhões de euros. O grupo emprega hoje cerca de 13 mil pessoas em uns vinte países. Aulnoye-Aymeries deveria se tornar o centro mundial de comando da P&D e desenvolver a manufatura aditiva. Philippe Guillemot havia colocado duas condições para a sobrevivência da unidade: encontrar mercados fora dos hidrocarbonetos e dar certo na impressão 3D de aço.
O Brasil, fábrica do grupo
Desde o fechamento das unidades alemãs, a grande maioria dos produtos destinados à indústria é fabricada e vendida no Brasil, onde a Vallourec também explora uma mina de ferro e florestas em Minas Gerais. Esse segmento de Mina e Florestas vendeu 1,2 milhão de toneladas de minério no segundo trimestre, queda de 24 %, com receita de 92 milhões de dólares. Seu resultado sofreu com a valorização do real. Em setembro de 2025, o grupo assinou com a Petrobras um acordo de longo prazo que pode chegar a 1 bilhão de dólares para o fornecimento de tubos e conexões aos poços offshore brasileiros entre 2026 e 2029, com serviços de engenharia e gestão de estoques. Philippe Guillemot via nele « mais uma prova da recuperação » do grupo. A América do Norte continua sendo o principal mercado de tubos, com 384 milhões de dólares de vendas no segundo trimestre.
O que muda para os brasileiros na França
A Vallourec ilustra uma realidade industrial franco-brasileira: o que a França fecha, o Brasil produz. As usinas do Barreiro, em Belo Horizonte, e de Jeceaba, em Minas Gerais, são hoje o pulmão industrial de um grupo listado em Paris. Para engenheiros e técnicos brasileiros, a Vallourec continua sendo um dos raros grupos em que uma carreira pode ser construída entre Belo Horizonte e o norte da França. Para os trabalhadores de Aulnoye-Aymeries, a pergunta é mais dolorosa: um grupo que distribui 650 milhões de euros aos acionistas pode justificar um novo plano de demissões? A resposta da direção é esperada nas próximas semanas, com o detalhamento do PSE e os resultados do terceiro trimestre.