3 de novembro de 2026

Economia franco-brasileira

Itaú e BTG na Europa, AFD no Nordeste: as finanças Brasil-França na véspera do Copom

Bancos brasileiros ampliam presença europeia enquanto a Agência Francesa de Desenvolvimento mantém 3,4 bilhões de euros aplicados no Brasil. A Selic a 13,75% é o pano de fundo da reunião do Copom.

Foto : Pixabay / Leonhard_Niederwimmer

Em 25 de setembro de 2026, o governo federal lançou a terceira fase do Desenrola, que autoriza a União a comprar dívidas antigas com desconto para conter a inadimplência das famílias. Nove dias depois, veio o primeiro turno da eleição. A Direção-Geral do Tesouro da França, que acompanha a economia brasileira semanalmente, resume o programa em uma frase: ele dá alavanca orçamentária ao governo, mas não enfrenta o custo do crédito. É o retrato de um sistema financeiro sob pressão. O Banco Central prepara regras mais duras para empréstimos sem garantia diante da piora na solvência dos domicílios. E nesta terça-feira, 4 de novembro, o Comitê de Política Monetária decide o rumo da Selic, hoje em 13,75%. Na pesquisa da Bloomberg de 27 a 29 de outubro, dez de dezoito economistas esperam manutenção e oito apostam em corte para 13,50%. JPMorgan, Itaú e Goldman Sachs preveem pausa. O dólar subiu cerca de 9% frente ao real na semana seguinte à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, e o Ibovespa caiu 16,6% em três pregões.

Bancos brasileiros olham para a Europa

Nesse cenário, os grandes bancos brasileiros seguem crescendo fora. O Itaú Unibanco, maior banco privado da América Latina, lucrou US$ 8,8 bilhões em 2025, com ativos totais de US$ 559,3 bilhões e 92.470 funcionários, dos quais 82.693 no Brasil. Mantém escritórios em Lisboa, Londres, Luxemburgo e Zurique. O BTG Pactual, que se apresenta como o maior banco de investimentos da América Latina, teve receita de US$ 6,3 bilhões e lucro de US$ 3 bilhões em 2025, com mais de US$ 500 bilhões sob gestão em wealth e asset management. Presente na Europa, o banco acelerou nos Estados Unidos: em dezembro de 2025, o Federal Reserve aprovou a compra do M.Y. Safra, em Nova York, transformado em BTG Pactual Bank. No sentido inverso, os três grandes bancos franceses, BNP Paribas, Société Générale e Crédit Agricole, operam em São Paulo no banco de atacado e de investimentos, atendendo multinacionais e grandes grupos brasileiros. O Société Générale divulgou lucro líquido de 1,9 bilhão de euros no terceiro trimestre de 2026, alta de 24,8%, com receita de 21,4 bilhões em nove meses.

AFD e BNDES, o dinheiro público da transição

A Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) atua no Brasil desde 2007. Com a subsidiária Proparco, sua exposição líquida chegava a 3,4 bilhões de euros no fim de 2024, em mais de 70 projetos. Entre 2013 e 2024, a agência destinou 1,8 bilhão de euros ao sistema financeiro brasileiro, bancos públicos de desenvolvimento e bancos privados, em parceria com a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), e apoia o Banco Central por meio da Expertise France. Entre os projetos recentes estão 200,5 milhões de euros para água e saneamento da Cagece, no Ceará, entre 2025 e 2040; 150,3 milhões para infraestrutura sustentável no Nordeste; e 200 milhões para financiar a economia de baixo carbono entre 2024 e 2027. Quatrocentas mil pessoas ganharam melhor acesso a água e esgoto com esses programas. Do lado brasileiro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) continua sendo o grande financiador da indústria: em março de 2025, aprovou R$ 241,8 milhões para a tecnologia híbrida Bio-Hybrid que a Stellantis desenvolve em Betim. Para o brasileiro que trabalha com finanças em Paris, esses números são o dia a dia. Mesas de operação francesas procuram analistas que leem português, e Itaú e BTG contratam na Europa quem conhece os dois sistemas bancários.