4 de novembro de 2026

Brasil

Quarto mandato: que maioria Lula terá em um Congresso dominado pela direita?

A base do presidente tem 24% da Câmara e 22% do Senado. O PL tem as maiores bancadas, o Centrão tem a chave, e a eleição das Mesas em 1º de fevereiro de 2027 será o primeiro teste.

Foto : Pixabay / MarreKrisu

No dia 26 de outubro, menos de 24 horas depois de reeleito, Lula recebeu no Palácio da Alvorada o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Disse a ambos que apoia sua reeleição, segundo CNN Brasil e UOL citados pelo Jornal Grande Bahia. O gesto resume o quarto mandato antes mesmo de ele começar: sem o centro, não há governo.

A conta das bancadas

Os números do O Povo são claros. Na Câmara que toma posse em 1º de fevereiro de 2027, a base de Lula soma 124 deputados em 513, ou 24%. A oposição tem 143. O Centrão reúne 246 cadeiras, 48% da Casa. No Senado, a base governista fica em 18 de 81 senadores, contra 31 da oposição e 32 do centro. Para aprovar um projeto de lei são necessários 257 deputados e 41 senadores. Para uma emenda constitucional, 308 e 49. Mesmo com todos os seus 18 senadores, Lula precisa de mais 23 votos para chegar à maioria simples do Senado.

O PL é o maior partido nas duas Casas, com 121 deputados e entre 28 e 29 senadores. Segundo o Times Brasil, os partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno somam 50 senadores, um a mais do que o necessário para emendar a Constituição. É por essa porta que passam as reformas do próximo mandato, da tributação às regras fiscais, e também a pauta anti-STF defendida por parte da direita.

O plano que o PL perdeu

Com a vitória de Flávio, o partido queria comandar Câmara e Senado. A reeleição de Lula desfez o plano. Em 14 de outubro, um bloco de centro com União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania e Podemos, cerca de 240 deputados, anunciou apoio à reeleição de Motta. Em 27 de outubro, a federação PT-PCdoB-PV, com 88 deputados, aderiu: 328 votos potenciais. Motta quer pelo menos quinze partidos ao seu lado, segundo a Gazeta do Povo, para isolar PL e Novo na divisão de cargos e comissões. No Senado, Alcolumbre diz ter 48 votos e recebeu em 27 de outubro o apoio formal da federação União-PP.

O PL ainda decide o que fazer. No Senado, a aposta é Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, que defende voto aberto na disputa. Na Câmara, deputados do partido consideram difícil travar duas batalhas ao mesmo tempo e admitem apoiar Motta em troca de espaço na Mesa e nas comissões. A posição seria definida em reunião interna em 4 de novembro.

O preço do centro

O Centrão não vota de graça. Cargos, emendas parlamentares e presidências de comissão estão na mesa. As comissões filtram os projetos antes do plenário e influenciam a distribuição de recursos, lembra a Gazeta do Povo. Para o governo, impedir que o PL domine as comissões é tratado como vital para proteger a agenda econômica e social. Gilberto Kassab, presidente do PSD, deu o recado em 2 de novembro: Lula precisa de uma agenda econômica voltada ao centro, segundo o Poder360. O mercado, que derrubou o Ibovespa em 18% em uma semana, diz o mesmo com outras palavras.

Érico Firmo, editor-chefe de Política do O Povo, avalia que a governabilidade nunca foi tão difícil de alcançar e que este último governo será o mais complicado de todos. Lula já governou com Congresso hostil, mas nunca com tão poucos deputados fiéis e uma oposição tão numerosa. O primeiro teste será em 1º de fevereiro, na eleição das Mesas. O segundo vem logo depois: votar o Orçamento de 2027 e as promessas de campanha em um Parlamento que não foi eleito para aprová-las.