4 de novembro de 2026

Brasil

Copom de 4 de novembro: Selic em 13,75% e mercado aposta em pausa após a eleição

O Banco Central decide na quarta-feira após cinco cortes seguidos. A reeleição de Lula e um dólar 9% mais caro viraram as apostas: JPMorgan, Itaú e Goldman Sachs esperam a manutenção da taxa.

Foto : Pixabay / DenisStreltsov

Dez contra oito. É assim que termina a pesquisa da Bloomberg com 18 economistas, feita entre 27 e 29 de outubro, sobre a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, 4 de novembro: dez esperam a Selic mantida em 13,75% ao ano, oito ainda projetam um corte para 13,50%. Uma semana antes, a maioria apostava no corte. Oito participantes mudaram de ideia depois da reeleição de Lula. Treze elevaram a projeção da Selic para o fim de 2027, entre 25 e 300 pontos-base. Nenhum a reduziu.

A curva virou

O Banco Central iniciou o ciclo de cortes em março e acumulou cinco reduções seguidas de 0,25 ponto. Entre o primeiro e o segundo turno, com a chance de vitória de Flávio Bolsonaro, a curva de juros futuros (DI) chegou a precificar uma Selic perto de 12% no fim de 2027. Agora aponta para 15%. As opções de Copom negociadas na B3 davam, em 28 de outubro, 66,5% de probabilidade de manutenção e 32% de um corte de 0,25 ponto. Segundo a Bloomberg Línea, a maioria dos operadores já embute alta de juros em dezembro. Alejandro Cuadrado, estrategista do BBVA, descreve as apostas como “bastante desorganizadas”.

O que dizem os grandes bancos

O Itaú espera manutenção em 13,75% e decisão unânime de interromper o ciclo. Diogo Guillen, economista-chefe do banco, prevê um comunicado com ênfase em cautela e persistência, diante de um cenário externo adverso e de pressões inflacionárias domésticas maiores. O Itaú projeta inflação de 3,4% no horizonte relevante, contra 3,2% na última projeção do Copom e meta de 3%. No JPMorgan, Vinicius Moreira, Mirella Sampaio e Gustavo Ribeiro avaliam que a depreciação do real e a possível alta das expectativas de inflação reforçam o caso da pausa. Citam ainda as mudanças tributárias e trabalhistas do fim do ano e os efeitos do El Niño sobre os alimentos. No Goldman Sachs, Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina, não vê espaço para cortes: 2027 será um ano ruim para a inflação e, nas palavras dele, “não faz sentido realizar cortes com base em uma projeção para o segundo trimestre de 2028”. Andres Abadia, da Pantheon Macroeconomics, resume: “A questão central é a credibilidade fiscal.”

Brasília sobe o tom

A decisão sai em ambiente tenso. O dólar subiu cerca de 9% frente ao real na semana seguinte à eleição. Economistas ouvidos pela Bloomberg classificam como inflacionárias as medidas de campanha: reajuste do Bolsa Família, PEC da tarifa zero no transporte aos fins de semana e fim da escala 6×1. Do lado do governo, a resposta foi dura. Durante a campanha, em entrevista ao SBT, Lula afirmou que um presidente da República não pode ficar impedido de discutir a política monetária. A deputada Gleisi Hoffmann defendeu o artigo do economista André Lara Resende, que propõe levar a Selic gradualmente para 7,5%, e depois ponderou que conversar sobre uma proposta não significa encampá-la. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou qualquer encontro com o economista e descartou tabelamento de juros.

Quem defende o corte lembra que o juro real se aproxima de 9%, segundo a The Economist, e que o desemprego caiu a 5,2% sem descontrole de preços. David Austerweil, gestor da VanEck, concorda que a economia brasileira “precisa urgentemente de juros mais baixos”, mas acrescenta que, sem um esforço fiscal credível, o Banco Central não consegue entregá-los. Quem defende a pausa responde que cortar juros uma semana depois de um choque cambial de 9% custaria ao Copom o que lhe resta de credibilidade. Na quarta-feira, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, terá de escolher entre as duas leituras. O mercado já escolheu a dele.