3 de novembro de 2026

Brasil

Vale: lucro cai 53% no terceiro trimestre e minério de ferro fica abaixo de US$ 90

A maior mineradora brasileira lucrou US$ 1,25 bilhão entre julho e setembro de 2026. Preço do minério, frete e real forte pesaram, enquanto o cobre sustentou as margens.

Foto : Pixabay / stux

A Vale vendeu seus finos de minério de ferro a US$ 85,1 por tonelada no terceiro trimestre de 2026, 10% a menos do que um ano antes. O número explica quase tudo no balanço divulgado em 30 de outubro: lucro líquido de US$ 1,255 bilhão, queda de 53%, e Ebitda ajustado de US$ 3,327 bilhões, recuo de 24%. O consenso da Bloomberg esperava US$ 1,5 bilhão de lucro. Em reais, o resultado caiu para R$ 6,4 bilhões (menos 56%), com receita de R$ 54,4 bilhões. Em dólares, a receita ainda subiu 2%, para US$ 10,6 bilhões, porque a empresa vendeu 86,3 milhões de toneladas de minério usando estoques, enquanto a produção recuava 6%, para 88,4 milhões de toneladas, por menor disponibilidade de minério em Serra Norte, no Pará.

Os custos subiram no mesmo período. O custo caixa C1 passou a US$ 23,1 por tonelada (alta de 12%) e o custo total a US$ 60,4 (alta de 21%). Três fatores se somam: real mais forte, combustível mais caro e frete marítimo em alta. O barril de Brent custou em média US$ 91,29 no trimestre, 34% acima de um ano antes, na esteira da guerra no Irã. O frete spot entre Brasil e China saltou 48% entre o primeiro e o terceiro trimestre. O presidente da companhia, Gustavo Pimenta, afirmou que a flexibilidade do portfólio, a estratégia de frete e o programa de hedge contribuíram para proteger as margens. A Vale agora mira o piso da meta anual de 335 a 345 milhões de toneladas.

Cobre salva o trimestre

A diversificação deu resultado. O cobre foi vendido a US$ 15.314 por tonelada, 56% acima de 2025, e o Ebitda da divisão cresceu 66%, para US$ 1,02 bilhão, mesmo com produção 6% menor durante a manutenção programada em Sossego. O níquel avançou 6% em volume, mas o Ebitda recuou 14%. A dívida líquida expandida ficou em US$ 16,4 bilhões. Os investimentos devem fechar o ano no piso da faixa de US$ 5,4 bilhões a US$ 5,7 bilhões, e o diretor financeiro descartou dividendos extraordinários em 2026.

A China continua como principal cliente e árbitro do preço do minério. Desde os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019, que matou 272 pessoas, a Vale opera sob forte vigilância regulatória: acordo de R$ 37,7 bilhões com Minas Gerais em 2021 por Brumadinho e acordo de R$ 170 bilhões assinado em outubro de 2024 com as autoridades por Mariana. Em 2026, a mina de Fábrica ficou parada de janeiro a setembro depois de um transbordamento de água que causou danos ambientais.

Governança: Previ impõe seu presidente

O ano também foi marcado por uma disputa societária. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil e maior acionista da Vale, pediu em junho a saída do presidente do conselho, Daniel Stieler, ele próprio ex-presidente da Previ. Stieler acusou o fundo de abuso do direito de voto e renunciou no início de julho. A assembleia de 22 de julho elegeu para a presidência do conselho o conselheiro independente Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o Ollie, português com formação na África do Sul. Defensores da Previ falam em disciplina. Críticos temem a volta da influência do governo por meio de um fundo próximo ao poder.

A comparação com a França ajuda a medir o tamanho da Vale. A Eramet, mineradora francesa de manganês e níquel, divulgou em 29 de outubro receita trimestral de 746 milhões de euros, alta de 4%, mas o níquel da Indonésia caiu 64% e o grupo prepara um aumento de capital de 500 milhões de euros com participação do Estado francês. A Vale fatura em um trimestre cerca de doze vezes a receita da Eramet. As duas empresas enfrentam o mesmo dilema: vender para a China sem depender dela.