4 de novembro de 2026

Brasil

Petrobras no Lula IV: produção recorde, nova descoberta e preços sob vigilância

A estatal anunciou recorde de produção e uma terceira descoberta no Amapá na mesma semana da reeleição. Para o Tesouro e para os acionistas, a pergunta agora é sobre preços e dividendos.

Foto : Pixabay / keridjackson

Em 15 de outubro, a Petrobras valia R$ 800 bilhões na B3, máxima histórica. Dez dias depois, Lula foi reeleito e o Ibovespa perdeu 18% em uma semana. No meio do tombo, a companhia divulgou dois resultados que, em qualquer outro momento, teriam dominado o noticiário. Em 28 de outubro, um recorde de produção própria: 3,512 milhões de barris de óleo equivalente por dia no terceiro trimestre de 2026, alta de 11,7% em um ano, com o pré-sal respondendo por 2,96 milhões, ou 84%. Em 29 de outubro, a terceira descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, a 2.886 metros de profundidade d’água.

Operação no limite

As refinarias operam a 99% da capacidade, cinco pontos acima de um ano antes. A produção de diesel bateu recorde trimestral de 769 mil barris por dia. As exportações de óleo e derivados chegaram a 1,251 milhão de barris diários. As plataformas P-80 e P-82 deixaram Singapura rumo a Búzios, onde devem entrar em operação em 2027 com capacidade de 225 mil barris por dia cada. Segundo o InvestNews, a produção nacional deve crescer até 2031-2032, para cerca de 4,2 milhões de barris por dia, antes do declínio do pré-sal. Por isso a Margem Equatorial importa: a Foz do Amazonas pode conter de 6,2 a 10 bilhões de barris de óleo equivalente, e a produção comercial levaria de cinco a sete anos, segundo a Gazeta do Povo. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, foi cautelosa em agosto: “Há uma descoberta, mas não uma descoberta comercial.”

O que o Tesouro recebe

Para as contas públicas, o petróleo é uma fonte de renda relevante. Em 2025, a União recebeu R$ 17,6 bilhões em dividendos da Petrobras, mais de R$ 31 bilhões via Pré-Sal Petróleo (PPSA) e R$ 100 bilhões em royalties, cerca de 5% da receita federal, segundo o InvestNews. Entre 2022 e 2025, o petróleo representou 6,4% da arrecadação federal, contra 3% nos anos 2000. Um governo que, segundo a Instituição Fiscal Independente, precisaria contingenciar R$ 35,7 bilhões para cumprir a meta vai olhar com atenção para esse fluxo. O risco para os acionistas minoritários é conhecido: financiar a política social com dividendos menores ou com preços de combustíveis contidos.

A memória de 2022

O mercado não esqueceu. Em 2022, investidores venderam Petrobras com medo de interferência nos preços e nos dividendos com a volta de Lula. A GQG Partners, maior acionista privada da estatal, fez o contrário e aumentou a posição. Seu cofundador, Rajiv Jain, mantém a aposta: a Petrobras “ainda está barata” e paga dividendos elevados, disse à Bloomberg em 27 de outubro, avaliando que os investidores exageram as consequências das mudanças políticas para uma empresa desse porte. A ação rendeu mais de 285% em dólares desde 2022, dividendos incluídos.

Nos preços, a companhia aplica uma fórmula contratual que suaviza as oscilações internacionais. Em 1º de novembro, reajustou o querosene de aviação em 7,2%, citando as tensões no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia. Para diesel e gasolina, a decisão é política: com o dólar a R$ 5,44 e o barril volátil, segurar os preços na bomba teria custo direto para os acionistas e indireto para o Tesouro. Quem defende uma Petrobras voltada ao mercado interno vê nela um instrumento contra a inflação. As casas de análise citadas pelo InvestNews, ao contrário, colocam a ação entre as preferidas na turbulência, por causa da receita em dólar. As duas leituras não cabem juntas por muito tempo.