3 de novembro de 2026

Brasil

Dólar dispara 9% frente ao real: o que os investidores temem no quarto mandato de Lula

O Ibovespa perdeu 18% em uma semana, a pior desde a pandemia. Por trás do pânico estão três promessas de campanha e uma pergunta: quem paga a conta, e dentro de qual regra fiscal?

Foto : Pixabay / Tumisu

Quase 1 trilhão de reais. É quanto a bolsa brasileira perdeu em valor de mercado na semana seguinte à reeleição de Lula, segundo levantamento da Elos Ayta citado pela Gazeta do Povo. O Ibovespa recuou 18,12% em cinco pregões, a pior semana desde março de 2020 e a quinta maior queda desde o Plano Real. O dólar comercial fechou a sexta-feira, 30, a R$ 5,444, alta de 9,04% na semana, a maior desde outubro de 2008. O ganho do índice no ano caiu de quase 30% para cerca de 4%.

A segunda-feira do circuit breaker

Tudo começou na abertura de 26 de outubro. O Ibovespa despencou 16,6% nos primeiros minutos e a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia. O índice fechou em queda de 13,88%, com perda de R$ 734 bilhões em um só dia. O dólar subiu 8,21%, para R$ 5,403, depois de passar de R$ 5,60 durante a sessão. A reação não foi contra o nome do presidente, e sim contra o que o mercado espera de sua agenda. Entre os turnos, parte dos investidores havia apostado na alternância de poder e em uma correção das contas públicas. A vitória de Lula desfez a aposta.

Três promessas na mira

Economistas ouvidos pela Bloomberg apontam três compromissos de campanha como inflacionários e pesados para o Orçamento: o reajuste do Bolsa Família, a PEC da tarifa zero no transporte público aos fins de semana e o fim da escala 6×1, promulgado em 16 de outubro. O UBS estima em cerca de R$ 300 bilhões o conjunto das promessas eleitorais e cobra um pacote com medidas específicas e números claros, aprovado ainda este ano por um Congresso de maioria conservadora.

O governo diz que a conta fecha. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirma que as medidas serão acomodadas por remanejamento de R$ 20 bilhões dentro do Orçamento de 2027, “sem qualquer impacto na despesa global”. A Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, discorda em parte. Para o economista Alexandre Andrade, cumprir a meta exigiria contingenciar cerca de R$ 35,7 bilhões, e o limite do arcabouço fiscal se torna insuficiente a partir de 2028. A dívida bruta se aproxima de 83% do PIB. Um estudo da Fundación Mediterránea, divulgado pela Bloomberg Línea, projeta 105% por volta de 2030 se não houver desindexação dos gastos. O déficit nominal, com juros, passa de 9% do PIB.

O termômetro do câmbio

Jonathan Fortun, economista do Institute of International Finance, define o teste: se um sinal fiscal credível vier nas próximas semanas, o real volta a R$ 5,20 com a ajuda do carry trade. Sem isso, o diferencial de juros de cerca de dez pontos em relação aos Estados Unidos apenas retarda a depreciação. O UBS trabalha com R$ 5,40 como primeiro nível de referência e não descarta nova rodada de desvalorização. No fim de 2024, quando o mercado duvidou do ajuste, o dólar chegou a R$ 6,20. Mauricio Monge, da Oxford Economics, resume o desafio do presidente: convencer os mercados de que pode entregar um ajuste fiscal confiável e sustentável.

O Planalto preferiu o confronto. Guilherme Boulos, secretário-geral da Presidência, disse que não se pode contrapor “uma chantagem de mercado à vontade popular”. Edinho Silva, presidente do PT, falou em oportunistas que apostam contra o governo. Lula escreveu no X que nenhum programa social será cortado. Do outro lado, Rajiv Jain, cofundador da GQG Partners e maior acionista privado da Petrobras, pede calma: “Vender Brasil agora seria um erro”, disse à Bloomberg, avaliando que os freios e contrapesos ainda funcionam. O mercado espera duas coisas: a confirmação da equipe econômica para 2027 e um plano com números. Até agora, não recebeu nenhuma das duas.