Minas Gerais decidiu. Lula obteve 50,43% dos votos válidos no estado contra 49,57% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de 109 mil votos. A tradição se repetiu: desde a redemocratização, quem vence em Minas vence a Presidência. Foi um dos 13 estados conquistados pelo presidente no dia 25 de outubro, quando ele garantiu o quarto mandato com 51,74% dos votos válidos contra 48,25%, mais de 62 milhões de votos e uma vantagem superior a 4 milhões.
O saldo nordestino
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral compilados pela Bloomberg Línea mostram a conta por trás do resultado. Nos nove estados do Nordeste, Lula somou 24,5 milhões de votos contra 10,8 milhões do adversário, um saldo de 13,7 milhões. No resto do país, Flávio Bolsonaro abriu uma vantagem líquida de 9,3 milhões. A diferença entre os dois números é a reeleição. Lula venceu nos nove estados nordestinos, em três do Norte (Pará, Amazonas e Amapá) e em Minas. Flávio levou 13 estados e o Distrito Federal: os três do Sul, com 69,42% em Santa Catarina e 62,58% no Paraná, todo o Centro-Oeste, com 66,06% no Mato Grosso, e três estados do Sudeste. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, ele fez 53,85% e abriu cerca de 2 milhões de votos de frente.
Do outro lado, a Bahia deu a Lula 71,31% e um saldo de 3,9 milhões de votos, quase o mesmo que os três estados do Sul reunidos deram a Flávio (4,6 milhões). O Piauí registrou o maior percentual do presidente, 75,88%. No Norte, a divisão foi quase perfeita: 1.079 votos separaram os dois candidatos no conjunto da região.
Abstenção caiu onde Lula é forte
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro saiu na frente e a abstenção bateu recorde: 21,08%. No segundo turno, ela recuou para 19,22%, o menor índice em vinte anos. Cerca de 3 milhões de eleitores a mais foram votar. A queda foi mais forte na Bahia (de 19,97% para 16,71%) e em Pernambuco. Também caiu em São Paulo, onde quase 1 milhão de votos a mais foram depositados, sem reverter o resultado estadual. A exceção foi o Norte, única região em que a abstenção subiu, com altas no Amapá e em Roraima.
O cientista político Rodrigo Pando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ouvido pelo O Povo, pede cautela: os 3 milhões de novos votantes são menos do que os 4 milhões de diferença final. A vitória também veio da transferência de votos dos candidatos eliminados, entre eles Ronaldo Caiado e Romeu Zema, e da queda de brancos e nulos. Um estudo da Opinião Inteligência Política, divulgado pelo Brasil 61, calcula que Lula cresceu 10,4 milhões de votos entre os turnos, contra 3,7 milhões de Flávio. O presidente ficou com 74% dos votos novos.
Alckmin e os 33 milhões
O vice-presidente Geraldo Alckmin teve papel definido na reta final. Ex-governador de São Paulo e nome do centro-direita na chapa, ele transformou a abstenção em alvo. Citou 33 milhões de eleitores que ficaram em casa no primeiro turno e percorreu São Paulo: evento com evangélicos, encontro com a comunidade judaica, missa em Aparecida no dia 12 de outubro. Em entrevista reproduzida pelo A Crítica, resumiu a estratégia: conversar com os eleitores e motivar quem não foi no primeiro turno a votar no segundo.
O mapa final repete a divisão vista em todas as eleições desde 2006. Lula governará com um Congresso em que o PL de Flávio Bolsonaro tem as maiores bancadas da Câmara e do Senado. O mercado reagiu na segunda-feira, 26, com queda da bolsa e disparada do dólar. O mandato 2027-2031 começa com um dado simples: 51,74% dão o direito de governar, não o de governar sozinho.