Quando Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Paris, em junho de 2025, fazia treze anos que um presidente brasileiro não visitava oficialmente a França. Mais de vinte instrumentos de cooperação foram assinados. No encerramento do fórum empresarial, Jorge Viana, presidente da Apex Brasil, repassou uma estimativa que ouviu de Jean-Pierre Clamadieu, presidente do conselho de administração da Engie: as empresas francesas pretendem investir R$ 100 bilhões no Brasil em cinco anos. O número chamou atenção, mas a presença francesa já é antiga e pesada.
Quarto ou segundo lugar, depende da régua
Segundo dados do Banco Central do Brasil compilados pela Direção-Geral do Tesouro da França, o estoque de investimento direto francês no país alcançou US$ 69,3 bilhões no fim de 2024, ou 8% de todo o capital estrangeiro aplicado no Brasil. Pelo critério do investidor imediato, a França ocupa o quarto lugar, atrás de Estados Unidos, Países Baixos e Luxemburgo, com US$ 63,3 bilhões. Pelo critério do controlador final, que identifica a matriz de verdade por trás de holdings em paraísos fiscais, a França sobe para a segunda posição. São cerca de 1.400 filiais de empresas francesas, que empregam aproximadamente 450 mil pessoas. Das quarenta companhias do índice CAC 40, 38 estão instaladas no Brasil. O país também vai bem no ranking global: a OCDE o coloca como terceiro maior destino de investimento estrangeiro em 2025, com US$ 77 bilhões, atrás apenas de Estados Unidos e China.
Comércio de bens em queda
O comércio bilateral conta outra história. Pelos números da alfândega francesa, as trocas de bens somaram 7,6 bilhões de euros em 2025, 5,7% a menos do que no ano anterior. As exportações francesas caíram 7,3%, para 3,8 bilhões de euros, e as importações ficaram estáveis, também em 3,8 bilhões. O saldo favorável à França encolheu para 12,8 milhões de euros, contra 253 milhões em 2024. A França vende ao Brasil aviões e peças aeronáuticas, produtos químicos, perfumes e cosméticos, máquinas e medicamentos. Compra alimentos processados, minérios, produtos agrícolas e celulose. Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) são diferentes por causa da metodologia: as importações brasileiras vindas da França teriam alcançado US$ 7,2 bilhões em 2025, contra US$ 6,2 bilhões em 2024. A França é o sétimo fornecedor do Brasil, com 2,6% de participação, e apenas o trigésimo cliente.
Quem faz a ponte
A Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB) é um dos canais dessa relação. Seu presidente em São Paulo, Thierry Besse, foi recebido em 12 de maio de 2026 pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para discutir o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. « O Brasil é um grande parceiro e precisamos nos relacionar melhor », disse ele, segundo a CNA. A Business France, agência pública francesa de apoio à exportação, atende cerca de 600 empresas por ano a partir de São Paulo e do Rio de Janeiro. Um Fórum França-Brasil já está marcado para 27 de setembro de 2027, em Paris. A reeleição de Lula em 25 de outubro derrubou o Ibovespa em 16,6% em três pregões, segundo nota do Tesouro francês de 29 de outubro, e o dólar subiu cerca de 9% frente ao real. As multinacionais francesas, instaladas há décadas, costumam olhar mais longe. Para o brasileiro que vive na França, essas 1.400 filiais são empregadores em potencial, à procura de gente que circule bem entre os dois países e as duas línguas.