Em Itajubá, no sul de Minas Gerais, a única fábrica de helicópteros da América Latina está em um momento de virada. A Helibras, controlada pela Airbus, encerra a produção do H225M depois de 47 unidades para as Forças Armadas, com o último aparelho sendo montado para a Força Aérea Brasileira. A linha nasceu do acordo estratégico assinado por Brasil e França em 2008. Agora a aposta é outro modelo. Em 3 de julho de 2025, os dois governos assinaram uma carta de intenções para produzir em Itajubá o H145, helicóptero de uso civil e militar. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços fala em cerca de R$ 1 bilhão de investimento e algo como 200 aeronaves em quinze anos, para o mercado interno e para exportação. A fabricação de chicotes elétricos deve começar em 2027. O contrato de produção completa ainda não existe: a Helibras calcula que precisa de uma demanda mínima de 50 H145 para viabilizar a linha, e a necessidade do Exército, que quer substituir seus Fennec, subiu para cerca de 19 aparelhos. Enquanto isso, a fábrica monta os 27 H125 encomendados em setembro de 2022 para treinar pilotos da Aeronáutica e da Marinha. Já são mais de 850 helicópteros entregues no Brasil.
O lado francês da Embraer
A relação funciona nos dois sentidos. A Embraer fechou 2025 com receita recorde de R$ 41,9 bilhões, alta de 18%, e 244 aeronaves entregues: 78 jatos comerciais, 155 executivos e 11 militares. A carteira de pedidos chegou a US$ 31,6 bilhões, também recorde. Para 2026, a empresa projeta de 80 a 85 entregas comerciais e de 160 a 170 executivas, com receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões, já contando com tarifa americana de 10%. Dentro desses aviões há muita engenharia francesa. A Safran tem mais de 750 funcionários no Brasil, em quatro unidades, e sete empresas do grupo fornecem para a Embraer: reversores de empuxo, gravadores de voo, sistemas de ventilação e cabeamento. No cargueiro militar KC-390, a Safran entrega seis pacotes de sistemas e equipamentos. A Liebherr-Aerospace de Toulouse projeta e fabrica o sistema de ar integrado dos E-Jets E2 e mantém fábrica em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. A Thales é parceira da Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer para os carros voadores elétricos, desde 2022. Em julho de 2026, a Safran Electronics & Defense anunciou que o eVTOL da Eve vai receber duas unidades do seu sistema de navegação inercial SkyNaute por aeronave. O protótipo em escala real completou a fase de voo pairado em Gavião Peixoto, com quase duas horas e meia de voo.
Motores, companhias aéreas e carreiras
A Safran Helicopter Engines cuida dos motores Arriel e Makila a partir do centro de Xerém, na Baixada Fluminense, criado em 2002 e ampliado em 2012. Um em cada dois helicópteros que voam no Brasil usa motor Safran. Nas companhias aéreas, a Airbus também avança: a LATAM anunciou em 6 de julho de 2026 a chegada de 40 novas aeronaves, com 7 A320neo e 4 A321neo no primeiro lote, nove delas destinadas ao Brasil, e espera o primeiro A321XLR em 2027. A frota do grupo deve chegar a 410 aviões no fim de 2026. Para brasileiros que estudam engenharia ou manutenção aeronáutica na França, o recado é simples: Toulouse e São José dos Campos fazem parte da mesma cadeia industrial, e quem domina as duas línguas tem vantagem na hora de circular entre elas.