3.335 km². Foi essa a área desmatada na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo os dados anuais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados pelo governo federal na sexta-feira, 16 de outubro de 2026. No período anterior, foram 5.731 km². A queda é de 41,8%, e o resultado é o menor da série histórica, iniciada em 1988. O recorde anterior, de 4.571 km², era de 2012. Para dar uma ideia, a área desmatada em um ano equivale a pouco mais do que duas vezes a cidade de São Paulo.
Os três estados que mais desmatam recuaram mais de 45%: o Pará passou de 2.064 para 1.130 km², o Mato Grosso de 1.593 para 849 km² e o Amazonas de 979 para 525 km². Só Roraima ficou estável (286 km², alta de 0,4%). O sistema de alertas Deter, que acompanha o desmatamento em tempo quase real, já indicava em agosto queda de 36,9% na área sob alerta, para 2.874 km², o menor número desde 2016. No Cerrado, a redução dos alertas foi mais modesta, de 7,8%. No conjunto dos seis biomas brasileiros, o desmatamento caiu 20,1% em 2025, com recuo de 65,4% no Pantanal.
O que o governo comemora e o que os críticos respondem
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva relacionou os números ao debate internacional sobre o clima e pretende usá-los para responder a críticas, inclusive as que vieram de Washington depois do tarifaço americano. O Observatório do Clima chamou os dados de históricos. O Ipam avalia que a meta de desmatamento zero em 2030 segue possível. A oposição lembra que a queda começou com o reforço da fiscalização do Ibama e das multas e que depende de um orçamento federal apertado. Também aponta que o Cerrado, menos visível, continua perdendo mais área do que a Amazônia e que os incêndios de 2024, ano de seca extrema, não entram na conta do desmatamento.
A leitura econômica pesa tanto quanto a ambiental. O Brasil quer vender uma agricultura rastreada. Cadastro Ambiental Rural, imagens de satélite e geolocalização das propriedades viraram condição de acesso a mercados, não apenas obrigação legal. As grandes tradings de soja e de carne sabem que um hectare desmatado depois de 2020 vale menos, porque fecha a porta da Europa.
Bruxelas mantém 30 de dezembro de 2026
O regulamento europeu de produtos livres de desmatamento (EUDR) proibirá a venda na União Europeia de soja, carne bovina, cacau, café, óleo de palma, madeira, borracha e derivados oriundos de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020. A aplicação foi adiada duas vezes. O Regulamento 2025/2650 fixou a data em 30 de dezembro de 2026. Em 5 de maio de 2026, a Comissão Europeia publicou sua revisão de simplificação: sem reabrir o texto, com guias práticos e uma proposta de excluir o couro do alcance da lei, o que o World Resources Institute lamentou. Janneke de Vries, diretora do instituto para a Europa, pediu que as empresas montem rapidamente seus sistemas de conformidade.
Brasília combateu a norma desde o início. Em setembro de 2024, o governo entregou a Bruxelas uma carta pedindo a revisão urgente de uma lei considerada contrária ao princípio da soberania e discriminatória contra países com florestas. Marcio Astrini, do Observatório do Clima, classificou a iniciativa de triste e lamentável. Dois anos depois, os dados do Inpe dão ao Brasil um argumento que ele não tinha: o desmatamento cai sem a imposição europeia. Para os importadores franceses, nada muda na obrigação de rastreabilidade que entra em vigor em dois meses.