4 de novembro de 2026

Brasil

Agronegócio: safra recorde, El Niño, China e Europa na equação do quarto mandato de Lula

A Conab projeta 367 milhões de toneladas de grãos em 2026/27. O setor, que apoiou Flávio Bolsonaro, enfrenta cota chinesa na carne, suspensão europeia e chuvas que atrasam a cana.

Foto : Pixabay / charlesricardo

Em 27 de outubro, dois dias depois da reeleição de Lula, a senadora Tereza Cristina mandou um recado aos produtores rurais: “A voz de vocês não será calada.” E completou: “Estaremos lá para fiscalizar esse governo e lutar pelo país que queremos.” A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) havia apoiado abertamente Flávio Bolsonaro e esperava uma relação mais próxima com o Executivo, relata a Bloomberg Línea. O deputado Arnaldo Jardim, nome forte da bancada, pediu foco nos desafios do setor e diálogo com Congresso e governo.

Uma safra sem precedentes

O ponto de partida é favorável. O primeiro levantamento da Conab para a safra de grãos 2026/27, divulgado em 15 de outubro, projeta 367,1 milhões de toneladas, alta de 1,4%, volume nunca alcançado. A soja deve render 181,6 milhões de toneladas e o milho 148 milhões, em uma área de 85,4 milhões de hectares. As exportações de soja são estimadas em quase 118 milhões de toneladas. Os atritos com o governo são conhecidos: direitos fundiários, regras ambientais, tributação, crédito rural e seguro agrícola. Uma medida provisória assinada por Lula para atender o setor expira em cerca de um mês e é considerada insuficiente. No campo, os custos apertam: o diesel chegou ao maior preço em quatro anos para a época de plantio, segundo a Bloomberg, e a Selic de 13,75% encarece o crédito. O câmbio, porém, joga a favor. Com o dólar a R$ 5,44, a receita do exportador em reais aumenta.

China: cliente e árbitro

Em 26 de outubro, os contratos futuros de soja em Chicago caíram até 1,7%, ao menor nível desde o fim de agosto. O mercado leu a vitória de Lula como garantia de uma relação pragmática com Pequim. O Brasil forneceu quase 80% da soja importada pela China nos nove primeiros meses do ano, e a Cofco investiu em terminais em Santos. A China, no entanto, também impõe limites. Em 2026, criou uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para a importação de carne bovina. O Brasil a esgotou em 29 de setembro e, desde 1º de outubro, paga tarifa adicional de 55%. Frigoríficos já concederam férias coletivas. No frango, casos da doença de Newcastle levaram à suspensão dos embarques para a China, segundo a Bloomberg Línea.

Europa fechada, El Niño aberto

Do lado europeu, as importações de frango, carne bovina, ovos e mel brasileiros estão suspensas desde 3 de setembro de 2026, por falta de garantias sobre o uso de antibióticos, depois que o Brasil saiu em maio da lista de países conformes. A auditoria continua, sem data para retomada. O acordo UE-Mercosul, em aplicação provisória desde 1º de maio apesar do voto contrário da França, prevê uma cota adicional de 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida. Maria Eduarda Blaiklock, ex-servidora do governo brasileiro e hoje consultora na Europa, resume à Bloomberg: o que está sendo minado é “a credibilidade do sistema”. O Ministério da Agricultura promete rastreabilidade individual do gado até 2032.

O clima entra na conta. As chuvas do El Niño atrasam a colheita da cana. A Sucden reduziu sua projeção de açúcar de 40 para 37 milhões de toneladas, e até 45 milhões de toneladas de cana podem ficar no campo, segundo a Vital Commodities. O JPMorgan lista o El Niño entre os riscos inflacionários de 2027. No quarto mandato, o agro segue sendo motor de exportações e a oposição mais organizada do país. Os dois fatos terão de conviver.