3 de novembro de 2026

Internacional

Venezuela sem Maduro: o Brasil condenou a operação americana e agora negocia com Delcy

Dez meses depois da captura de Nicolás Maduro, Caracas tem embaixada americana reaberta, lei de anistia e petróleo privatizado. Em Roraima, quase 550 mil venezuelanos continuam do lado brasileiro da fronteira.

Foto : Pixabay / gregtovar

Quase 550 mil venezuelanos vivem no Brasil, segundo os dados de 2024 da Operação Acolhida. Desde abril de 2018, o programa de interiorização levou 128.241 pessoas de Roraima para outros estados, com orçamento anual de R$ 300 milhões em 2024. O número dá a medida do que está em jogo para o Brasil na crise venezuelana: não é só um debate sobre soberania, é uma longa fronteira terrestre com um país que trocou de governo à força em janeiro.

A noite de 3 de janeiro

Às 23h46 de 2 de janeiro de 2026, horário de Caracas, Donald Trump autorizou a Operação Absolute Resolve. Os ataques começaram por volta das duas da manhã. Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores, foram capturados e levados aos Estados Unidos. Em 5 de janeiro, os dois se declararam inocentes de tráfico de drogas em um tribunal federal de Manhattan. O julgamento está marcado para 1º de junho de 2027. No mesmo 3 de janeiro, o Tribunal Supremo venezuelano colocou Delcy Rodríguez na presidência interina. Ela prometeu que o país « nunca mais será colônia de nenhum império ».

O que o Brasil disse

Luiz Inácio Lula da Silva classificou a ação como uma « gravíssima afronta à soberania da Venezuela » e um « precedente extremamente perigoso ». Em 4 de janeiro, o Brasil assinou com Espanha, Chile, Colômbia, México e Uruguai uma nota de « profunda preocupação e firme rejeição » às ações militares unilaterais. No dia 5, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu a pedido de Venezuela e Colômbia; Washington defendeu uma operação policial contra um foragido com acusação formal. Javier Milei comemorou uma « excelente notícia para o mundo livre ». Na França, Emmanuel Macron celebrou o fim da « ditadura de Maduro » e o ministro Jean-Noël Barrot lembrou o princípio do não uso da força. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores falou em sequestro; o PL Mulher, braço feminino do Partido Liberal presidido por Michelle Bolsonaro, em começo do fim do regime.

A posição brasileira carrega um histórico. Em maio de 2023, Lula recebeu Maduro em Brasília e chamou as denúncias de violação de direitos humanos de « narrativa construída ». Depois da eleição venezuelana de 2024, o Brasil pediu os dados detalhados da votação, nunca os recebeu e barrou a entrada da Venezuela no BRICS. Caracas retirou seu embaixador em outubro de 2024. Em janeiro, o Brasil defendeu a soberania de um governo com o qual já não tinha relação normal.

Caracas mudou de dono

Desde então, os Estados Unidos restabeleceram relações diplomáticas em 5 de março, reconheceram Delcy Rodríguez como única chefe de Estado em 12 de março, reabriram a embaixada em 30 de março e os voos diretos em 30 de abril. Uma lei de anistia foi aprovada em 19 de fevereiro e centenas de presos políticos saíram da cadeia. A reforma dos hidrocarbonetos de 29 de janeiro abriu o petróleo a empresas privadas.

Os liberais brasileiros leem o resultado como prova de que a pressão funciona e de que o Itamaraty apostou por dois anos no cavalo errado. A diplomacia brasileira responde que uma potência derrubou um governo vizinho sem mandato da ONU e que o precedente vale para qualquer país da região. Os dois lados concordam em um ponto: a Venezuela ainda não tem data para eleições. Mais de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país, segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Enquanto Caracas não oferecer trabalho e voto, Pacaraima continuará recebendo quem chega, não quem volta.