3 de novembro de 2026

Internacional

França e Brasil: 730 km de fronteira, submarinos e uma briga pelo acordo Mercosul-UE

Macron e Lula se encontraram pelo menos seis vezes desde 2023 e dividem um programa de submarinos de US$ 12 bilhões. Mas Paris votou contra o acordo comercial e cobra ação contra o garimpo na Guiana.

Foto : Pixabay / ChiemSeherin

São 730 quilômetros. A fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa é a mais longa fronteira terrestre da França, maior que qualquer divisa que o país tem na Europa. Desde 2017, uma ponte sobre o rio Oiapoque liga Macapá a Caiena pela BR-156 e pela RN2. A obra foi decidida em uma visita de Luiz Inácio Lula da Silva à França. Por ela passam turistas, comerciantes e, pelos rios ao redor, o ouro ilegal que envenena os dois lados da linha.

O garimpo que Paris não controla

A França mantém desde março de 2008 a Operação Harpie, com cerca de mil militares e gendarmes, contra garimpos clandestinos na Guiana. Em agosto de 2023, 143 sítios ilegais estavam registrados no território. A extração ilegal é estimada entre 8 e 10 toneladas de ouro por ano, contra uma produção legal de 1 a 1,5 tonelada. Em 31 de agosto de 2023, 1.500 quilômetros de rios estavam contaminados por mercúrio. Os garimpeiros vêm, em sua maioria, de regiões pobres do Brasil e do Suriname. O assunto está na agenda dos dois governos há quase vinte anos, sem resultado duradouro.

Uma relação de Estado intensa

Emmanuel Macron fez visita de Estado ao Brasil de 26 a 28 de março de 2024, passando por Belém, pelo estaleiro de Itaguaí, por Brasília e por São Paulo. Lula esteve na França de 3 a 9 de junho de 2025: Palácio do Eliseu, Academia Francesa, sede da Interpol em Lyon e Conferência do Oceano da ONU em Nice. Os dois voltaram a se ver em Belém, na COP30, em novembro de 2025, e em Évian-les-Bains, no G7 de 15 a 17 de junho de 2026. Poucos chefes de Estado se encontram com essa frequência.

A base da relação é industrial e militar. A parceria estratégica de 2008 gerou um contrato de cerca de US$ 12 bilhões: quatro submarinos da classe Scorpène, apoio ao projeto do submarino de propulsão nuclear e cinquenta helicópteros EC725 montados pela Helibras. O estaleiro de Itaguaí entregou o segundo submarino em janeiro de 2024. No lado civil, a diplomacia francesa contava em 2019 perto de mil empresas francesas no Brasil, cerca de 500 mil empregos e algo como 30 bilhões de euros em investimento direto. O Brasil é o primeiro parceiro comercial da França na América Latina.

O acordo que a França não quer

O ponto de atrito está em Bruxelas. A França votou contra o acordo entre União Europeia e Mercosul, assinado em 17 de janeiro de 2026 em Assunção, e levou o caso ao Tribunal de Justiça da União Europeia. O texto entrou em aplicação provisória em 1º de maio, com oposição apenas de França, Polônia e Hungria. Os pecuaristas franceses miram a cota adicional de 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa de 7,5%, da qual a JBS poderia ficar com 85% a 90%, segundo estudo da École de Guerre Économique. Brasília enxerga protecionismo. Paris ganhou um argumento que não esperava: desde 3 de setembro de 2026, a Comissão Europeia suspendeu as importações de carne bovina, frango, ovos e mel do Brasil por falta de garantias sobre antibióticos.

Com Lula reeleito em 25 de outubro, os interlocutores continuam os mesmos. Os dossiês também: a carne, o ouro e o rio que separa e une os dois países.