Em 6 de novembro de 2025, na cúpula de chefes de Estado que abriu a COP30, o Brasil lançou o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), um fundo desenhado para pagar países tropicais pela floresta que mantêm de pé. A conta é simples: US$ 4 por hectare conservado, desconto de US$ 400 por hectare desmatado e pelo menos 20% dos repasses para povos indígenas e comunidades locais. A meta é um fundo de US$ 125 bilhões. No lançamento, mais de US$ 5,5 bilhões foram anunciados, com cerca de US$ 3 bilhões da Noruega e 1 bilhão de euros da Alemanha; Brasil, Indonésia e Portugal aparecem entre os primeiros contribuintes. O Reino Unido recusou. Um ano depois, o fundo tem estatuto aprovado, adotado no primeiro semestre de 2026, e uma declaração de interesse assinada em Roterdã por 34 instituições financeiras com mais de 10 trilhões de euros em ativos, entre elas Amundi, Allianz Global Investors e PIMCO. O calendário dos primeiros pagamentos ainda não foi publicado.
Belém em números
A conferência ocorreu de 10 a 21 de novembro de 2025 no Hangar de Belém, sob presidência do diplomata André Corrêa do Lago. Foram 56.118 credenciados, a segunda maior COP da história, com 3.805 brasileiros na maior delegação. Cerca de 1.600 lobistas de combustíveis fósseis circularam pelos corredores. Um incêndio no pavilhão em 20 de novembro obrigou a evacuar o local. A hospedagem virou escândalo, com anúncios de até US$ 9.320 por noite, navios de cruzeiro fretados pelo governo e a Áustria desistindo de participar. Os Estados Unidos não mandaram representante oficial, algo inédito em uma COP; o governador da Califórnia Gavin Newsom liderou uma delegação paralela. O chanceler alemão Friedrich Merz zombou da cidade e se recusou a pedir desculpas.
O que ficou decidido e o que não ficou
O texto final prevê triplicar o financiamento para adaptação até 2035, sem dizer quem paga, adota 59 indicadores de adaptação e cria um mecanismo de transição justa. O « roteiro de Baku a Belém » fala em US$ 1,3 trilhão por ano para países em desenvolvimento, sem obrigação para ninguém. Mais de 80 países pressionaram por um compromisso de saída dos combustíveis fósseis. Os produtores de petróleo barraram qualquer linguagem vinculante. Sobraram dois roteiros voluntários, um sobre fósseis e outro sobre desmatamento, encaminhados a uma reunião na Colômbia em abril de 2026. Os planos nacionais apresentados por 113 países apontam para corte de apenas 12% das emissões até 2035, longe dos 60% necessários para a meta de 1,5 grau.
O paradoxo do anfitrião
O país que organizou a conferência da floresta é também um grande exportador de petróleo: a China comprou US$ 20,1 bilhões em óleo bruto brasileiro em 2025. Ambientalistas veem contradição. Liberais veem realismo: nenhum país endividado abre mão de uma das maiores fontes de divisas em troca de um texto sem força de lei. Luiz Inácio Lula da Silva embarca para Antalya nos dias 11 e 12 de novembro de 2026 para entregar a presidência à Turquia, com a Austrália conduzindo as negociações da COP31. Levará um instrumento financeiro concreto e nenhuma meta sobre petróleo. É pouco ou muito, dependendo de quem conta.