3 de novembro de 2026

Internacional

China compra 28,7% do que o Brasil exporta: parceria recorde ou dependência perigosa

O comércio bilateral chegou a US$ 171 bilhões em 2025 e a BYD já exporta carros feitos em Camaçari. O superávit é o maior da história, mas quatro produtos sustentam quase tudo.

Foto : Pixabay / dendoktoor

Soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina. Quatro produtos explicam a maior parte dos US$ 100 bilhões que o Brasil vendeu à China em 2025. A soja sozinha rendeu US$ 34,5 bilhões, e 79% de toda a soja exportada pelo país foi para portos chineses. O petróleo bruto somou US$ 20,1 bilhões (45% das exportações do produto), o minério de ferro US$ 19,5 bilhões (67%) e a carne bovina US$ 8,8 bilhões, com alta de 47,9%. Os dados são do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que registrou corrente de comércio recorde de US$ 171 bilhões, 27,2% de todo o comércio exterior brasileiro.

O que vem na direção contrária

O Brasil importou US$ 70,9 bilhões da China, também recorde, e fechou o ano com superávit de US$ 29,1 bilhões, o décimo sétimo seguido. Esse saldo equivale a 43% de todo o superávit comercial brasileiro. A China é hoje o maior fornecedor de manufaturados do país, com 27% das importações industriais, à frente dos Estados Unidos (16%). A lista inclui carros híbridos (US$ 1,87 bilhão, alta de 25%), herbicidas, painéis solares, fertilizantes e medicamentos. A maior compra isolada do ano foi uma plataforma de petróleo, por US$ 2,66 bilhões.

O caso mais visível é a BYD. A fábrica de Camaçari, na Bahia, começou a produzir em 1º de julho de 2025, montou 10 mil veículos em seis meses e tem capacidade inicial de 150 mil unidades por ano. Em 13 de março de 2026, a empresa anunciou pedidos de exportação de 100 mil carros, metade para a Argentina e metade para o México. A meta é chegar a 600 mil unidades, o que faria de Camaçari a maior base da BYD fora da China e a maior montadora instalada no Brasil. A marca vendeu mais de 113 mil carros no país em 2025.

A briga da tarifa de 35%

Desde 1º de julho de 2026, carros elétricos e híbridos importados pagam 35% de imposto de importação, fim de uma transição iniciada em 2023. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defendeu o cronograma para proteger R$ 140 bilhões de investimentos anunciados até 2033. Seu presidente, Igor Calvet, afirmou que « o rompimento da pactuação do cronograma das alíquotas constrange o setor e põe em risco o investimento anunciado em 2023 ». Do outro lado, Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD no Brasil, lembrou que os benefícios temporários eram condição para a fábrica baiana e resumiu: « Eu quero dizer que brigar com o governo nunca é bom ».

Marcus Paulo Santos, presidente da Associação Brasil-China de Negócios, vê um fator novo: « A eficiência industrial passou a ter um peso tão importante quanto a questão tributária ». O economista Igor Lucena atribui a queda de preços a uma mistura de impostos altos, margens históricas elevadas das montadoras e excesso de capacidade chinesa com incentivos estatais.

Margem de manobra

Os defensores da relação dizem que a China ofereceu ao Brasil um mercado que ninguém mais oferecia e que a concorrência chinesa baixou o preço do carro para o consumidor. Os críticos respondem que o país vende grãos e minério, compra tecnologia e fica refém de cada desaceleração chinesa. As exportações de frango para a China caíram 53% em 2025, lembrete de que Pequim fecha portas tão rápido quanto abre. O Brasil não vai romper com seu maior cliente, e Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito em 25 de outubro, mantém a proximidade com Pequim. Mas tem instrumentos: tarifa para quem não produz no país, viagem a Manila e à cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático de 13 a 15 de novembro, acordo Mercosul-União Europeia em vigor provisório desde 1º de maio. A pergunta que fica é quanto do que sai bruto o país vai conseguir transformar aqui.