Uma cédula de brincadeira. Foi isso que circulou na cúpula de Kazan, na Rússia, em 2024, como amostra de uma futura moeda dos BRICS. Dois anos depois, a moeda continua sendo uma maquete. Nenhuma decisão foi tomada, o governador do banco central indiano já disse que a desdolarização é só uma parte da história, e Donald Trump prometeu tarifa de 100% contra quem levar a ideia adiante. Em fevereiro de 2025, o presidente americano declarou que o grupo estava « morto ». Em setembro de 2026, o grupo se reuniu de novo, em Nova Délhi, com dez membros e uma declaração final que não citou a guerra na Ucrânia.
Quem está no clube
Brasil, Rússia, Índia e China fundaram o grupo em 2009. A África do Sul entrou em 2010. Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos chegaram em 2024, e a Indonésia em 6 de janeiro de 2025. A Arábia Saudita foi convidada e nunca confirmou. Cerca de uma dúzia de países parceiros, de Belarus à Malásia, orbitam ao redor. O conjunto soma perto de 46% da população do planeta e pouco mais de um terço do PIB mundial em paridade de poder de compra. O Novo Banco de Desenvolvimento, criado na cúpula de Fortaleza em 2014, tinha aprovado mais de US$ 32 bilhões para 96 projetos até 2024.
O Brasil usou seu poder de veto uma vez: barrou a entrada da Venezuela de Nicolás Maduro em 2024. O gesto resume a estratégia brasileira. Ficar na sala, mas não deixar o clube virar uma frente contra o Ocidente.
A cúpula do Rio e a de Nova Délhi
Luiz Inácio Lula da Silva presidiu o grupo em 2025 e recebeu os líderes no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de julho. Xi Jinping não veio, ausência inédita desde 2012; mandou o premiê Li Qiang. Vladimir Putin participou por vídeo, por causa do mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. As prioridades brasileiras foram saúde global, comércio, clima, governança da inteligência artificial e reforma do sistema de segurança da ONU. Em Nova Délhi, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, Narendra Modi concentrou a agenda em cadeias de suprimento, pagamentos entre países e uso de moedas nacionais no comércio.
A conta que o Brasil faz
Os defensores do grupo apontam dois ganhos. O primeiro é diplomático: o BRICS é o espaço em que Rússia e China dizem apoiar o assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança. O segundo é prático: acordos de pagamento em moeda local reduzem o custo de transação com a China, que compra 28,7% das exportações brasileiras, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China.
Os críticos liberais fazem outra conta. Uma moeda comum entre países com inflação, câmbio e controle de capitais tão diferentes não existe em lugar nenhum do mundo; o real flutua, o yuan não. O comércio brasileiro com Rússia, Irã ou Etiópia é marginal perto do que o país vende a Estados Unidos e Europa. E sentar ao lado de Teerã e Moscou tem custo de imagem justamente quando Brasília tenta derrubar uma sobretaxa americana de 25% e aplicar o acordo com a União Europeia. Falar com todo mundo é uma política. Saber o que se recebe em troca é outra. O Brasil ainda não respondeu à segunda pergunta.