Quase 60 milhões de votos. Foi o que Flávio Bolsonaro reuniu no segundo turno de 25 de outubro, 48,25% dos votos válidos, insuficientes diante dos 51,74% de Lula. O senador do PL entrou para a história como o primeiro candidato a liderar o primeiro turno e perder o segundo, lembra o cientista político Paulo Roberto de Souza, do Instituto Democracy in Check, ouvido pela Al Jazeera. Na segunda-feira, 26, ele gravou um vídeo dizendo que ficaria no Brasil para organizar a oposição. Trinta e seis horas depois, estava em Miami.
Vinte e seis horas de fuga
A cronologia foi reconstituída pelo Movimento Econômico com dados da Agência Brasil, da migração argentina e do FlightAware. No dia 26, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal intimou Flávio a entregar os passaportes, em inquérito sobre lavagem de dinheiro que também envolve o advogado Willer Tomaz. Ambos negam. A PF ainda investiga evasão de divisas e corrupção. Os passaportes não foram entregues no prazo e acabaram cancelados. Na terça, 27, às 8h, o senador avisou o coordenador de campanha Rogério Marinho de que iria “dar um tempo”. Às 22h50, a família entrou na Argentina pela ponte Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu. Às 23h30, um Gulfstream G400 fretado da Baires Fly decolou para Guayaquil, no Equador, por rota que evitou o espaço aéreo brasileiro. Na quarta, 28, antes das 10h30, o jato pousou em Opa-Locka, na Flórida. Donald Trump disse que aprovaria a entrada da família nos Estados Unidos e chamou a eleição de “muito estranha”. Eduardo Bolsonaro já mora no país.
Flávio não reconheceu a derrota. Em entrevista coletiva, disse ser “impossível” aceitar o resultado e anunciou um pedido de anulação, baseado em uma decisão de última hora do STF que prorrogou por duas horas o fechamento das urnas. Os registros oficiais apontam menos de 35 mil votos nesse intervalo, segundo a Al Jazeera. De Miami, uma carta o descreveu como “presidente eleito”.
O partido soltou a mão
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, desaprovou a carta, reconheceu a vitória de Lula e disse querer tocar o país para a frente, segundo o Brasil de Fato. União Brasil e PSD divulgaram notas confirmando a lisura da eleição. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que é preciso respeitar o resultado das urnas. Para Paulo Roberto de Souza, a família Bolsonaro deve manter cerca de 15% do eleitorado, mas perde poder de decisão dentro da direita. A quase totalidade dos partidos considera o pleito encerrado e transfere a disputa para o Congresso.
A força que ficou
É ali que o resultado de outubro pesa. O PL elegeu 121 deputados federais, 23,6% da Câmara, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988. No Senado, elegeu 19 nomes e terá entre 28 e 29 cadeiras em 81, outro recorde. Segundo o Times Brasil, os partidos que apoiaram Flávio no segundo turno reúnem 286 deputados e 50 senadores na legislatura que começa em fevereiro de 2027. Cinquenta senadores são um a mais do que os 49 necessários para aprovar uma emenda à Constituição.
Nos estados, o PL saltou de dois governadores em 2022 para seis, entre eles Sérgio Moro no Paraná, Jorginho Mello em Santa Catarina e Douglas Ruas no Rio de Janeiro. Os Republicanos mantêm São Paulo com Tarcísio, reeleito no primeiro turno com 62,65% e 14,5 milhões de votos, recorde para um governador. O PT ficou com quatro estados, todos no Nordeste.
O mandato de senador de Flávio termina em fevereiro de 2027. A partir daí, ele perde o foro privilegiado e fica, pela primeira vez em 24 anos, sem cargo eletivo. Jair Bolsonaro cumpre em prisão domiciliar a pena de 27 anos e 3 meses e segue inelegível até 2030. A derrota fecha a porta de um indulto em 2027. O bolsonarismo perdeu o candidato. A direita nunca teve tantos eleitos.