4 de novembro de 2026

Dossiê Bolsonaro Análise

O fator Trump: tarifas de 50% em nome de Bolsonaro e o que sobrou após a vitória de Lula

Em 2025, Washington impôs tarifas de 50% ao Brasil para denunciar a “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Um ano depois, a relação mudou de natureza. Balanço de uma aposta diplomática que não alterou a pena.

Foto : Pixabay / LoboStudioHamburg

Cinquenta por cento. Foi a alíquota anunciada por Donald Trump em 9 de julho de 2025, numa carta a Lula que apontava o processo contra Jair Bolsonaro como motivo central e falava em caça às bruxas. Em 30 de julho, um decreto declarou a situação brasileira “emergência nacional” para os Estados Unidos e somou 40% à tarifa básica de 10%. A medida entrou em vigor em 6 de agosto. No mesmo 30 de julho, o Tesouro americano incluiu o ministro Alexandre de Moraes na lista de sanções da Lei Global Magnitsky, doze dias depois de o Departamento de Estado de Marco Rubio ter cancelado seu visto. Nunca uma potência estrangeira havia atrelado de forma tão explícita a política comercial ao destino judicial de um ex-presidente brasileiro.

O que a tarifa atingiu e o que poupou

O decreto trouxe isenções amplas: aeronaves, ou seja, a Embraer, suco de laranja e o setor de energia. Os atingidos foram café, carne bovina, frutas, pescado e parte da indústria. Por três meses, exportadores procuraram outros mercados, sobretudo a China, e o governo Lula respondeu com o discurso da soberania e a recusa de negociar qualquer ponto do processo judicial. Lula chamou a interferência de inaceitável e repetiu que não tinha medo de enfrentar Trump. O efeito político foi o contrário do pretendido pelo bolsonarismo: a tarifa aproximou Brasília dos BRICS e deu a Lula um tema de campanha. Um Datafolha de agosto de 2025 registrava 53% de aprovação à atuação de Moraes.

O refluxo

A maré começou a virar no fim de 2025. Em outubro, o Senado americano aprovou por 52 votos a 48 uma resolução simbólica para derrubar as tarifas sobre o Brasil. Em 26 de outubro, Lula e Trump se encontraram à margem da cúpula da ASEAN, na Malásia. Em 14 de novembro, Washington isentou café, carne bovina, frutas tropicais, cacau e outros produtos agrícolas, em nome dos preços internos americanos. Em 12 de dezembro, o Tesouro retirou Moraes e a mulher dele da lista Magnitsky. No início de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas baseadas na lei de emergência econômica, a base jurídica do decreto brasileiro. Washington reconstruiu parte do pacote por outro caminho: em julho de 2026, o representante comercial impôs 25% sobre móveis, etanol, máquinas, calçados e açúcar brasileiros, com base na seção 301. A sobretaxa punitiva virou uma disputa comercial comum.

Depois de 25 de outubro

Trump não abandonou o assunto. Depois do primeiro turno de 4 de outubro de 2026, saudou “uma grande vitória” de Flávio Bolsonaro. Três semanas depois, Lula foi reeleito com 51,74% e Flávio embarcou para Miami, onde já vive Eduardo Bolsonaro, o operador da aproximação com o governo americano. O saldo é desigual. Para a família Bolsonaro, o apoio de Washington rendeu manchetes, sanções temporárias contra um ministro e um argumento de perseguição política, mas nenhum efeito sobre a pena. Para o Brasil, o episódio custou três meses de incerteza aos exportadores e deixou uma relação bilateral a reconstruir, com um presidente reeleito contra o candidato apoiado pela Casa Branca. Uma pesquisa Pew de junho de 2026 mostrava a opinião brasileira dividida sobre os Estados Unidos: 47% favorável, 43% desfavorável. O fator Trump pesou na política brasileira. Não mudou o direito brasileiro.