3 de novembro de 2026

Dossiê Bolsonaro Análise

“Dark Horse”: o filme sobre Bolsonaro estreia no Brasil sem o protagonista, preso em casa

Dirigido por Cyrus Nowrasteh e idealizado por Mario Frias, “Dark Horse” conta a campanha de 2018 e a facada de Juiz de Fora. Jair Bolsonaro não verá a estreia. O filme chega no meio de uma disputa de narrativas.

Foto : Pixabay / onkelglocke

Jim Caviezel, o ator que interpretou Jesus em “A Paixão de Cristo”, agora é Jair Bolsonaro. Em volta dele, Marcus Ornellas faz Flávio, Sérgio Barreto é Carlos, Eddy Finlay vive Eduardo e Camille Guaty interpreta Michelle. “Dark Horse” estreia no Brasil no início de novembro de 2026, pela Europa Filmes, que comprou os direitos em julho. O protagonista real não estará na sala. Em prisão domiciliar desde 24 de março, proibido de qualquer comunicação com o exterior, Bolsonaro não pode assistir à pré-estreia nem comentar o filme que conta sua história.

Quem fez e o que conta

A direção é de Cyrus Nowrasteh, cineasta americano de origem iraniana, autor de “The Stoning of Soraya M.” e “Infidel”. O roteiro é dele e do filho, Mark Nowrasteh, a partir de uma história de Mario Frias chamada “Capitão do Povo”. Frias, ex-ator, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e deputado, idealizou o projeto, aparece nos créditos da produção executiva e atua como médico. A produção é conduzida por Eduardo Verástegui, de “Sound of Freedom”. A trama se concentra em 2018: a facada de 6 de setembro em Juiz de Fora, a recuperação, os debates, o casamento com Michelle. Um flashback mostra o jovem oficial Bolsonaro em ações contra o narcotráfico. O roteiro cria um traficante fictício e sugere uma convergência entre grupos de esquerda e crime organizado. Isso é ficção, não o resultado da investigação sobre o atentado, encerrada sem a identificação de um mandante. As filmagens começaram em outubro de 2025 no Hospital Indianópolis, em São Paulo, e seguiram para os Estados Unidos e o México, inteiramente em inglês, de olho no público internacional. O filme foi mostrado a distribuidores em Las Vegas em 15 de junho de 2026, com estreia americana marcada para 11 de setembro.

As polêmicas dos bastidores

Antes de chegar às telas, o filme virou notícia pelos bastidores. Pelo menos catorze figurantes denunciaram condições humilhantes, atrasos de pagamento e comida estragada; o sindicato dos artistas de São Paulo acionou o Ministério do Trabalho. Uma entidade ligada à dona da GoUp Entertainment, empresa associada ao projeto, fechou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, e vereadores pediram investigação. O ponto mais sensível é o dinheiro. Segundo o Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro teria pedido até R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em novembro de 2025. Flávio nega ter recebido recursos e fala em “patrocínio privado”. A produção e Mario Frias afirmam que nenhum dinheiro de Vorcaro ou do Master entrou no filme. Parlamentares de oposição acionaram a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal. Apoiadores de Lula também pediram ao Tribunal Superior Eleitoral que barrasse o lançamento antes da eleição.

Duas imagens de um mesmo homem

O filme chega depois da derrota de Flávio em 25 de outubro e de sua viagem para Miami. Oferece uma imagem: o sobrevivente de 2018, o homem providencial. A Justiça brasileira fixou outra: o líder de uma organização condenada por tentativa de golpe. O público tem as duas à disposição. Em 31 de outubro, Carlos Bolsonaro descrevia um pai mais magro e com saudade dos filhos. “Dark Horse” mostra um homem de pé em 2018. A distância entre essas duas imagens é o terreno onde se decide o futuro do bolsonarismo: entre a memória de uma ascensão e a realidade de uma pena.