Quarenta e oito por cento. Foi quanto Flávio Bolsonaro obteve no segundo turno de 25 de outubro, 48,25% para ser exato, contra 51,74% de Lula. Menos de 24 horas depois, na manhã de segunda-feira 26, ele saiu da casa de Brasília onde o pai cumpre pena, após os trinta minutos de visita permitidos, e encontrou agentes da Polícia Federal na calçada. Eles o intimaram, por decisão de Alexandre de Moraes tomada sob sigilo, a entregar os passaportes comum, diplomático e italiano e o proibiram de deixar o país. O senador é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) ao lado do advogado Willer Tomaz, suspeito de lavagem de dinheiro ligada a bets. Flávio conta ter dito ao pai: “Pai, começou a perseguição”. No mesmo dia, em vídeo, anunciou que ficaria no Brasil para organizar a oposição.
A saída pela fronteira
Os passaportes não foram entregues. Entre a noite de 27 e a manhã de 28 de outubro, Flávio, a mulher Fernanda e as filhas deixaram o país. Segundo o jornal argentino Clarín, reproduzido pelo Estadão, a família rodou cerca de 1.600 km até Foz do Iguaçu, cruzou para a Argentina e decolou de Puerto Iguazú em um Gulfstream, com escala no Equador, rumo a Miami. Flávio diz que decidiu sozinho, com a família. Atribui a decisão de Moraes a uma fala do irmão Eduardo, que um ano antes dissera que ele deveria sair do Brasil se perdesse. “Eu não saí do Brasil. Eu saí pelo Brasil”, afirmou em 30 de outubro, em uma live no Instagram. Contesta o resultado, fala em votos “matematicamente impossíveis” sem apresentar provas e não descarta nova candidatura. No dia 31, em Mar-a-Lago, Donald Trump deu o aval: “Pode ficar aqui pelo tempo que quiser”, e chamou a eleição de “uma desgraça, na minha opinião”. Marco Rubio negou ajuda, “Não facilitamos nada”, mas confirmou que Trump decidiu autorizar a entrada e que Flávio receberá um “parole” humanitário. O mandato de senador termina em fevereiro de 2027. Com ele, acaba o foro privilegiado.
O chefe calado e os herdeiros espalhados
Jair Bolsonaro continua no centro, mas em silêncio. Condenado a 27 anos e 3 meses, inelegível até 2030, em prisão domiciliar desde 24 de março de 2026, não pôde falar na campanha e não pode comentar a fuga do filho. No sábado 31, Carlos o encontrou mais magro, de novo com soluços e com saudade: “ele falou que está com muita saudade do Flávio”. Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde o início de 2025. Perdeu o mandato de deputado, foi condenado a quatro anos de prisão por buscar sanções americanas contra autoridades brasileiras e tem mandado de prisão em aberto, segundo a Agência Brasil. Fala com a base mais radical pelas redes, de fora. Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher, desistiu de concorrer. É a única da família sem processo ou exílio. Carlos, eleito senador por Santa Catarina em 4 de outubro, virou o único Bolsonaro com mandato nacional e presença física em Brasília. Já no dia 31 definiu a linha: “Nosso candidato é o Rogério Marinho” para a presidência do Senado em fevereiro de 2027, contra Davi Alcolumbre, o mesmo nome que Flávio indicou de Miami.
O partido e o Centrão
O Partido Liberal, presidido por Valdemar Costa Neto, reconheceu a vitória de Lula e cresceu nas urnas legislativas de 4 de outubro. Esse é o paradoxo da eleição: o bolsonarismo perdeu o Planalto, ganhou cadeiras e perdeu o candidato em três dias. O Centrão virou a página. Um presidente de partido resume, no Correio da Manhã: “A fila tem que andar”. O bolsonarismo sem Bolsonaro existe, mas em três pedaços que não conversam: uma base de 48% à espera de um líder, uma bancada que já negocia com o governo e uma família dividida entre Brasília, Miami e uma casa vigiada no Distrito Federal.