Em dezembro de 2022, o desemprego medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estava em 7,9%, o menor nível desde 2014. No mesmo mês, a Selic marcava 13,75%, o patamar mais alto desde 2016. Os dois números saíram do mesmo governo, e cada lado da política brasileira escolheu um deles para contar a história. Quatro anos depois do fim do mandato de Jair Bolsonaro, as séries oficiais permitem olhar os dois ao mesmo tempo.
Crescimento, preços e dívida
O PIB variou 1,2% em 2019, caiu 3,3% em 2020, cresceu 4,8% em 2021 e 3,0% em 2022, segundo o IBGE. No acumulado, cerca de 5,6% em quatro anos, pouco mais de 1% ao ano, com a maior recessão desde 1990 no meio. O desemprego, de 11,7% no início de 2019, passou de 14% no pior momento da pandemia antes de cair para 7,9% no último trimestre de 2022. A inflação é o argumento dos críticos. O IPCA subiu 4,31% em 2019 e 4,52% em 2020, disparou para 10,06% em 2021, bem acima da meta do Banco Central, e recuou para 5,79% em 2022, com ajuda da redução temporária dos tributos sobre combustíveis. A Selic acompanhou: 6,5% na posse, mínima histórica de 2% entre agosto de 2020 e março de 2021, depois 13,75% a partir de agosto de 2022, nível em que está até hoje. A dívida fez ida e volta. Pela metodologia do Fundo Monetário Internacional, a dívida bruta passou de 87,1% do PIB em 2019 para 96% em 2020 e voltou a 85,3% em 2022. A série do Banco Central, que exclui os títulos em carteira da própria autoridade monetária, mostra níveis mais baixos, perto de 73% no fim de 2022, mas a mesma trajetória: salto em 2020, recuo depois, puxado pela inflação e pelo crescimento nominal.
Pandemia e transferências
A Covid-19 matou cerca de 690 mil brasileiros até o fim de 2022. A gestão sanitária do presidente, contrária aos lockdowns e por muito tempo cética em relação às vacinas, foi alvo da CPI da Covid no Senado em 2021, cujo relatório final pediu seu indiciamento. A gestão fiscal foi o oposto: expansiva. O Auxílio Emergencial de 2020, de R$ 600 por mês para mais de 60 milhões de pessoas, custou perto de R$ 300 bilhões, pagos com dívida e fora do teto de gastos. Em novembro de 2021, o Bolsa Família virou Auxílio Brasil, de R$ 400, elevado a R$ 600 em agosto de 2022 por emenda constitucional aprovada a três meses da eleição. Para os críticos, foi o fim do teto de gastos, a regra de ouro de Paulo Guedes, rompida duas vezes por emenda à Constituição. Para os defensores, foi a rede que sustentou a retomada de 2021 e a queda do desemprego.
O que ficou de pé
Três textos sobreviveram à troca de governo. A reforma da Previdência de 2019, com economia estimada pelo governo em R$ 855 bilhões em dez anos, fixou idade mínima de aposentadoria. A lei de autonomia do Banco Central, de fevereiro de 2021, validada pelo STF, deu mandatos fixos aos dirigentes; Lula a criticou, mas não a alterou. A privatização da Eletrobras, em 14 de junho de 2022, rendeu R$ 33,7 bilhões e reduziu a fatia da União de 68,6% para 40,3% do capital votante. O mercado guarda esses três textos e o superávit primário do governo central em 2022, o primeiro desde 2013. Os críticos guardam a inflação de 2021, a perda de renda real das famílias e a pesquisa da Rede Penssan que contou 33 milhões de brasileiros em situação de fome em 2022. As duas leituras usam as mesmas séries. Só não escolhem os mesmos anos.