O Brasil nunca teve tão poucas mortes violentas desde que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começou a contá-las. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, registra 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, 8,2% a menos do que em 2024. A taxa caiu para 19,1 por 100 mil habitantes, abaixo de 20 pela primeira vez desde o início da série, em 2012, quando era de 27,7. Os homicídios dolosos recuaram 10% e os latrocínios, 17%. Dois indicadores subiram: as mortes em intervenções policiais (5,4%) e os feminicídios (4%), com 1.571 vítimas.
O Atlas da Violência 2026, do Ipea e do Fórum, aponta na mesma direção com os dados de 2024: 42.590 homicídios, taxa de 20,1 por 100 mil, a menor desde 1998. São Paulo tem 6,6 e Santa Catarina, 8,1. Na outra ponta, Amapá (45,7), Bahia (40,9) e Pernambuco (37,3) seguem acima de 35. Dezessete das vinte cidades mais violentas com mais de 100 mil habitantes ficam no Nordeste. O coordenador do Atlas, Daniel Cerqueira, faz uma ressalva: as mortes violentas por causa indeterminada cresceram 23,8%, e o estudo estima 7.083 homicídios ocultos nessas estatísticas em 2024, quase o dobro de 2023.
Duas facções, dois modelos de negócio
Menos homicídios não significa menos crime organizado. O Comando Vermelho, nascido nos presídios do Rio nos anos 1970, controla favelas inteiras e avança sobre a Amazônia e o Nordeste. O Primeiro Comando da Capital, criado em São Paulo, escolheu outro caminho: menos confronto, mais infiltração. Em 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto levou 1.400 policiais até a avenida Faria Lima, o centro financeiro paulistano, para desmontar um esquema de lavagem que passava por postos de combustível, refinarias, usinas e fintechs. Especialistas do Fórum citados pela Deutsche Welle avaliam que o PCC já lucra mais com combustíveis, cigarros, imóveis e contratos públicos do que com cocaína.
Em 28 de maio de 2026, os Estados Unidos incluíram as duas facções na lista de organizações terroristas estrangeiras. O secretário de Estado Marco Rubio as descreveu como duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. A medida, em vigor desde 5 de junho, permite bloquear bens sob jurisdição americana e aumenta a pressão sobre estruturas financeiras suspeitas de lavagem.
Estados na linha de frente, Brasília atrasada
No Brasil, segurança pública é, antes de tudo, responsabilidade dos governadores. O Rio de Janeiro apostou na força: a Operação Contenção, em 28 de outubro de 2025, levou 2.500 agentes aos complexos do Alemão e da Penha contra o Comando Vermelho e deixou mais de 120 mortos, um recorde. Pesquisas mostraram apoio majoritário da população. Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope, alertou que, sem ocupação permanente dos territórios, as lideranças serão substituídas e as armas, recompradas. São Paulo prefere a inteligência financeira e a articulação entre Polícia Federal, Ministério Público e Receita.
No plano federal, a PEC da Segurança Pública cria um sistema único de segurança, autoriza municípios a formarem suas polícias e endurece o regime prisional, sem saidinha, para integrantes de organizações criminosas de alta periculosidade. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado concluiu a votação em 14 de outubro de 2026. No dia seguinte, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, retirou o texto da pauta para evitar uma discussão açodada. A votação em plenário é esperada para o início de novembro. Governadores veem na PEC um instrumento de coordenação. Críticos temem centralização sem dinheiro novo. Para o brasileiro que vive na França e volta de férias, o mapa segue desigual: São Paulo e o Sul têm taxas próximas às dos Estados Unidos; Nordeste e Amapá continuam em patamar de guerra.