O Guia Michelin lista 31 restaurantes de “cozinha brasileira” no mundo inteiro. Entre os resultados franceses dessa categoria aparece um só endereço, e ele fica longe de Paris. O Bucado, na rue du Docteur-Jean-Fiolle 34, no 6º arrondissement de Marselha, é da chef Danielle Barbosa, campeã do MasterChef Brasil 2020. Os inspetores descrevem um salão “vestido com um afresco colorido inspirado na flora sul-americana” e um “temperamento afirmado” que junta lactofermentação e maturação de peixes a referências brasileiras. Tem menu vegetariano, coquetéis típicos e atendimento “sorridente e atento”. Faixa de preço: dois euros na escala do guia. Abre de terça a sábado à noite e de quarta a sábado no almoço.
Paris: Nosso e Tempero, porta com porta
Na capital, a referência brasileira do guia vermelho é o Nosso, na promenade Claude-Lévi-Strauss 22, à beira do Sena, no 13º. A chef Alessandra Montagne define a casa como uma cozinha “gastronômica descomplicada, inspirada por suas raízes brasileiras e pelo amor ao terroir francês”. À noite, três menus: Voyage, em quatro etapas, por 72 euros; Solaire, em cinco, por 82; e Paris-Rio, em sete, por 98. À la carte, entradas a 18 euros, pratos a 36, sobremesas a 16. No almoço, entrada e prato ou prato e sobremesa saem por 40 euros, e o menu completo por 48. O Michelin França 2026 descreve um espaço “contemporâneo” de concreto e madeira, aberto para fora, com cozinha de estação, influências brasileiras e produtos da região parisiense. No cardápio destas semanas: bochecha de boi confitada com polenta de comté, berinjela assada com missô, peixe do dia no forno. Funciona de segunda a sexta no almoço e de quarta a sexta no jantar. No número 24, ao lado, o Tempero, também da chef, anuncia no site: toda sexta-feira é dia de feijoada.
Picanha sem boi brasileiro
As churrascarias francesas vivem uma situação inédita. Desde 3 de setembro de 2026, a Comissão Europeia suspendeu as importações de carne bovina, frango, ovos e mel do Brasil por falta de garantias sobre o uso de antibióticos. Em 2025, o Brasil era o segundo fornecedor de carne bovina da União Europeia, com mais de 92 mil toneladas. Há uma auditoria em curso, sem data para retomada. A picanha servida na França, portanto, vem de outro lugar. Para o cliente, nada muda no prato. Para a JBS, que abate cerca de 75 mil bovinos por dia e tinha na Europa cerca de 7% das exportações em 2024, é mais um mercado fechado, dez meses depois de Bruxelas ter ordenado a retirada de lotes de carne do grupo, em novembro de 2025, por presença de progesterona.
Açaí, pão de queijo, cachaça
O resto do mapa brasileiro de Paris se lê nas tendências. O açaí na tigela, com granola e banana, saiu da orla carioca e chegou aos balcões dos bairros universitários. O pão de queijo aparece congelado nas mercearias latino-americanas e nos brunches. A cachaça deixa de ser só caipirinha e entra nas cartas de coquetéis. Os endereços desse circuito mudam depressa, no ritmo dos aluguéis parisienses. As duas casas citadas aqui têm uma vantagem: estão no guia Michelin, com endereço, horário e preço checáveis. Para o resto, vale o conselho que serve nos dois lados do Atlântico: reserve, porque os salões são pequenos e a diáspora é grande.