Em 1987, uma socióloga nascida no Rio de Janeiro abriu o próprio escritório de arquitetura em Paris. Trinta e nove anos depois, Elizabeth de Portzamparc, nascida Elizabeth Jardim Neves, assina um dos prédios mais fotografados do sul da França. O Museu da Romanidade, de frente para as arenas romanas de Nîmes, “se veste com uma toga de vidro plissado que evoca um mosaico ondulante”, como descreve o próprio museu, que guarda cerca de 5 mil peças e se apresenta como um dos mais visitados da região de Occitânia. O projeto venceu o concurso em 2012, recebeu o Future Heritage Award em Dubrovnik em 2016 e foi inaugurado em 2018. A revista AD o colocou entre os museus mais importantes construídos no mundo desde 1950.
Da PUC do Rio à EHESS
Ela passou pelo ateliê de arte Franck Schaeffer, no Rio, e entrou na faculdade de economia e sociologia da PUC, que abandonou logo para deixar o país. Em Paris, fez mestrado em sociologia e antropologia na Paris V, curso de planejamento urbano no IEDES (Paris I) e um DEA na EHESS sob orientação de Paul-Henry Chombart de Lauwe. Até hoje se define como “arquiteta e socióloga”. Em 1980, foi aprovada no concurso para lecionar em escolas de arquitetura e deu aula de 1984 a 1988 na escola de Paris-Val de Seine. Em 1986, abriu a galeria Mostra, em Paris. Em 1987, criou o próprio escritório. Sua escrivaninha-penteadeira “24 heures”, desenhada em 1985, foi exposta na Fondation Cartier em 1988 e comprada pelo Fundo Nacional de Arte Contemporânea da França.
Bordeaux, Massy, Le Bourget
Os concursos vencidos se acumulam: o mobiliário urbano das 145 estações do bonde de Bordeaux (1997-2013), a sede do jornal Le Monde em Paris (2003, prêmio Mipim de design em 2005), o novo centro da cidade de Massy (2011-2017), moradias nos Bassins à Flot de Bordeaux (2009-2016), o centro cultural francês de Florianópolis (2009). Depois, duas peças do Grand Paris: a estação Le Bourget, na linha 16 do Grand Paris Express (concurso 2014-2022), apresentada como uma das cinco estações emblemáticas da rede, e o Grande Equipamento Documental do Campus Condorcet, em Aubervilliers (2014-2019). Fora da França, a torre TIOC de Taichung, em Taiwan, descrita pelo escritório como “a primeira torre de 4ª geração pensada como uma aldeia”, e o Palácio das Ciências de Pudong, em Xangai. Em 2014, o Senado francês lhe entregou sua medalha.
Um escritório com dois nomes
Elizabeth é casada com Christian de Portzamparc, vencedor do prêmio Pritzker. O escritório comum, 2Portzamparc, reivindica mais de quarenta anos de experiência e incorporou em 2024 três sócios, Thierry Damez-Fontaine, Alexandre Belle e Rex Bombardelli, que já trabalhavam ali há mais de vinte anos. A marca própria dela cabe em duas ideias que formulou: a “hierarquia da intimidade”, que organiza o espaço da rua à metrópole, e a “arquitetura de vínculos”, atenta ao contexto físico e cultural de cada projeto. Muito jovem, fundou e dirigiu o Ateliê de Urbanismo Participativo de Antony; em 2008, criou um Ateliê de Urbanismo Sustentável com sociólogos e antropólogos. Para a diáspora brasileira na França, o nome dela ainda é menos conhecido do que o do marido. Os prédios, ao contrário, estão à vista: em Nîmes, Bordeaux, Massy, Aubervilliers e Le Bourget.