Sexta-feira, 30 de outubro, depois do fechamento dos mercados, a Fitch Ratings deu seu veredicto. A nota soberana da França continua A+, mas a perspectiva passa de estável para negativa. No fim de agosto, a agência havia mantido nota e perspectiva, considerando a economia « resiliente ». Dois meses depois, o tom mudou. A Fitch cita « um crescimento mais fraco, uma nova deterioração fiscal e rendimentos mais altos », além de « a fragmentação política persistente e um contexto social difícil », que complicam qualquer consolidação duradoura das contas públicas.
O custo da dívida dispara
A decisão saiu no mesmo dia em que o Insee anunciou a queda de 0,1 % do PIB no terceiro trimestre. O rendimento do título público de dez anos terminou a semana em 4,97 %, contra 4,91 % na véspera, depois de ter superado a barreira de 5 % na semana anterior. A Fitch observa que a alta dos juros é mais forte para a França do que para a maioria de seus pares, sinal de maior sensibilidade à confiança dos mercados. Em outras palavras: os investidores exigem um prêmio para emprestar a Paris. Cada décimo de ponto a mais encarece o serviço de uma dívida que passa de 3 trilhões de euros.
O governo mira um déficit de 5 % do PIB em 2027, depois dos 5,4 % esperados neste ano. Mas esse caminho depende de um crescimento de 1 % no ano que vem, que poucos economistas consideram realista. Maxime Darmet, da Allianz Trade, não aposta em mais de 0,5 % e avisa que o déficit não vai cair se a atividade continuar fraca. Sylvain Bersinger, da consultoria Bersingéco, teme que a crise da dívida se agrave e mergulhe o país em uma crise econômica e política bem mais séria.
Um orçamento a aprovar até o fim do ano
O ministro da Economia, Roland Lescure, reagiu na mesma noite: « Esta avaliação confirma a necessidade absoluta de aprovar até o fim do ano um orçamento responsável ». O governo de Sébastien Lecornu, sem maioria absoluta na Assembleia Nacional, defende um projeto de lei orçamentária para 2027 com 54 bilhões de euros de economias, entre elas o congelamento do índice salarial dos servidores e a não indexação de certos benefícios sociais. Os sindicatos convocaram greve para 5 de novembro. A Fitch ainda vê pontos de apoio: o tamanho e a diversificação da economia, a solidez das instituições, a pertença à zona do euro e a resistência do setor bancário.
A leitura não deixa dúvida. A França não tem um problema de receita, tem um problema de despesa. Com uma das maiores cargas tributárias da OCDE, a margem fiscal está esgotada. O único caminho confiável para tranquilizar os credores passa pelo controle dos gastos públicos e por um ambiente que deixe as empresas investir e contratar.
O que muda para os brasileiros na França
Os brasileiros conhecem o preço de uma dívida pública mal controlada: a Selic está em 13,75 % e o Copom se reúne nesta quarta-feira, 4 de novembro. A França não chegou a esse ponto, mas a mecânica é a mesma. Juros soberanos mais altos se transmitem ao crédito imobiliário, que já caminha para 4 %, e ao crédito ao consumo. Um Estado que precisa economizar 54 bilhões vai cortar ajudas, inclusive as de moradia e de formação profissional, que afetam diretamente quem acaba de chegar. Por fim, uma perspectiva negativa sobre a França pesa no médio prazo sobre o euro e, portanto, sobre o valor das remessas enviadas ao Brasil.